As homenagens a Frida Kahlo começaram cedo aqui em casa no dia em que a artista completaria 103 anos, não tivesse morrido de embolia pulmonar uma semana depois de seu aniversário de 47 primaveras.
Minha narrativa, especialmente hoje, se constrói ignorando as leis rigorosas do tempo. Pelo fim: ao chegar em casa, um envelope da Cosac Naify me aguardava; dentro dele, o livro “Frida Kahlo – Suas Fotos”, que a editora acaba de lançar, com mais de 500 imagens cuidadosamente guardadas pela própria artista durante sua vida, e de cuja revisão participei. Podem dizer que sou suspeita – o livro é lindo e tem fotos incríveis, além de textos que falam da importância que a fotografia tinha para Frida, de sua vida na Casa Azul, com Diego Rivera, das dores e cirurgias a que foi submetida desde sua juventude e por aí vai.
Eu gosto da Frida. Há algumas semanas, comprei uma bonequinha, daquela série Little Thinkers, que imita a pintora. Arrumei bonitinha na minha mesa de cabeceira e, para climatizá-la, levei até ela o cacto também mais ou menos novo que enfeitava a sala. Criei um cantinho mexicano, vaso amarelo, cacto verde, Frida de vestido vermelho. Lindo e latino.
Ainda assim, tanto amor não foi capaz de mitigar os sentimentos contraditórios que brotaram em mim quando folheei o livro. Isso já tinha acontecido pouco mais cedo, quando abri o Google pela primeira vez e vi, ali no logo, onde eles sempre inventam graça, uma Fridinha cheia de galhos e flores e sobrancelha. Eu não tinha percebido então, e só agora me dou conta: plantas e Frida.
Voltando ainda mais no tempo, este traiçoeiro ditador: às 5h35 da manhã, meu despertador tocou. Ao contrário dos outros dias, em que isso pouco significa pois eu continuo dormindo, acordei imediatamente. Frida, a aniversariante do dia, tinha seu dedo na história.
Pois quando eu comprei o despertador, na mesma loja em que adquiri Frida, optei por um colorido, com motivos florais por detrás dos ponteiros. Nem foi a cor que me chamou atenção, mas o modelo do relógio, aqueles que simulam os antigos e despertam com um ferrinho batendo dos dois lados em sininhos. Mas, já que era colorido, e eu tinha criado um cantinho mexicano ao lado da minha cama, por que não dar à pintora um pouco mais de tempo, já que o seu foi tão escasso? Voilà, despertador colorido em harmonia com vaso amarelo, cacto verde, Frida vermelha.
Foi um erro: o relógio faz um tique-taque incessante. Sempre que me deito, sinto minha alma sendo arrastada com o ponteiro dos segundos, de tão pesado que parece ser seu fardo de contar o tempo. Nos dias de exaustão, não é um problema, sou embalada, como se hipnotizada, pelo ritmo constante, tique, taque, tique, taque. Não acontece com frequência. Depois de duas noites de tortura chinesa, tirei a pilha e deixei-a ao lado, rompendo o equilíbrio latino do meu leito. Quem agradeceu foi o namorado – na primeira manhã em que o despertador soou, o homem deu um pulo na cama, por pouco não apanhei. Adeus bom humor matinal.
Mas na véspera do aniversário da Frida, eu estava exausta e preocupada com a manhã do dia seguinte. Se o alarme do celular tocasse às 5h35, eu ignoraria e dormiria até 9h30, sem dúvida. O despertador da Frida pareceu uma boa ideia. Pilhas de volta, ajeito o horário, ajeito o horário de despertar. Buenas noches, chicos.
Às 5h35, como previsto, ele tocou – estou usando um eufemismo aqui, o relógio tocava, gritava, apitava. Desesperada, com o coração disparado mas o raciocínio lento, comecei a bater nos sininhos, em cima do despertador, como a gente fazia nos anos 1980 com os rádio-relógios. Bati três, quatro, cinco vezes, com força, até me lembrar de que o sistema inteligente de desacionamento do despertador exige que o sonolento proprietário, mantendo a calma apesar daquele alarme de incêndio, pegue o bichinho na mão e, no verso, vire a chavinha para a posição “off”. Foi o que fiz, já ofegante.
Não cogitava deitar de novo, precisava do banho para me acalmar do susto. Ao pegar no lençol para afastá-lo e rumar ao banheiro, meu dedo indicador doeu. Que isso? Sem os óculos, mal dava pra perceber, mas eles estavam lá: do cacto da Frida, nanoespinhos brancos, semitransparentes, forravam o meu dedinho.
Buenos dias para vocês também.
Não doeu. Saíam com facilidade, um após o outro, acompanhados da minha risada de escárnio. Talvez um deles ainda esteja alojado na primeira falange, acomodado entre as dobrinhas. Se meu dedo ficar todo mexicano – amarelo, verde e vermelho -, eu penso no que fazer.

Escrito por mariana 









