Jogos de futebol são como as histórias de amor?

09.06.2010

(em homenagem à linha editorial do Blog das Perguntas)

“Eles compõem um retrato, mesmo que aproximativo, e que consiste afinal numa versão, entre as que seriam possíveis, dos acontecimentos. Considerados de uma maneira genérica, eles descrevem – nem que seja estatisticamente – os fatos, incluindo muitas vezes aquela margem dúbia entre ‘o que poderia ter sido’, e que tem de ser vencida, além do adversário, antes de selados inapelavelmente pelo sacrifício final – o gume duplo que separa vencidos e vencedores, dando a uns uma cota de corte no desejo e a outros a imantação mítica, mas provisória, da investidura num status superior, que se quer total. O apito final, como a morte, sela o sentido do acontecimento, mas sem sossegar necessariamente as virtualidades que o jogo desencadeia, as promessas que ele quase realizou, a multidão de alternativas que ele desenha.”

trecho de Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik

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Best to run

18.05.2010

É isso mesmo: ainda bem que eu nasci depois que a Clarice morreu. E ainda bem que eu não vou na Flip desse ano.

“For example – do you really want to say hello to X or Y author whose every semicolon has caused your tiny heart to flutter like a prayer flag in a breeze of pure delight? What if they turn out to be twat? Then you’ll feel betrayed and unable to read them. Actually, it’s quite unlikely that someone whose work you really connect with won’t be someone with whom you would also get along – their work is of them and from them and will be dibbled all over with things that are, in various ways, highly characteristic of who they truly are. Like the fruit – enjoy the tree. But they may be having an off day – or a divorce (writers are constantly getting divorced, it’s not unlikely).

Be careful with yourself in this regard, perhaps observe your idol for a while before approaching and, should he or she cuff an old lady out of their way or step on a dog, then maybe allow them to retain their mystery. And bear in mind that, if you do approach them and interact, you will think that you know them already. Writing and reading are intimate processes and so, in a way, you have been doing an intimate thing together, in your absence. This can be both unnerving and misleading. If you consider that even I – your humble, raddled, permanently weary and deeply unprepossessing author – have encountered a number of gentlemen who decided to be in love with me within moments, purely because my texts had previously interfered with them, then you can imagine what a minefield this becomes for people who are attractive and good at social contact. And, of course, I have fallen distantly and quietly in love with authors myself. It’s hard not to – their voice is already in your mind, the walls are breached. Best to run. I always do.”

The perils of meeting your favourite writers, AL Kennedy.


Partida

13.05.2010

* para o Vitor, que me encomendou um texto sobre futebol. Esse é de 2006, acho que ainda está atual. :P

Estavam todos reunidos na frente das tvs quando anunciou que tinha chegado sua hora: ia pendurar as chinelas. Pediu licença ao professor que há anos não ensinava português. Ele não gostou, como sair agora que estavam analisando as cruzadas? Tentou pelo meio: não podia fazer nada, melhor que ficar sentado naquele banco. O professor fez que não entendia, ele desistiu, linha de fundo. Jogou tudo por baixo das canetas, deixou o homem falando sozinho.

Saiu pela cozinha, nem deu bola pra chaleira, apitando. Sentou a última vez no banco para se preparar. Respirou fundo, levantou, andava de um lado para o outro. Assustou o gato que passava desatento quando escalou o banco. E o gato subiu no telhado.

Parece que foi zebra, não se sabe ao certo; o fato é que o gato deu um pulo e fez o corte de carrinho, e ele que estava no contrapé, cambaleia pra cá, balanceia com jogo de corpo, o voleio desequilibra pra lá, não adiantou nem tentar puxar a camisa, já estava no travessão: o velho se estatelou na pequena área.

E não fez mais nada: estava impedido. Morte súbita.


Eu e Machado

13.05.2010

“Como tinha inteligência natural, todas estas coisas lhe foram fáceis. O desenvolvimento do seu espírito não prejudicava o desenvolvimento de seus encantos. Mariana aos dezoito anos era o tipo mais completo da sua raça. Sentia-se-lhe o fogo através da tez morena do rosto, fogo inquieto e vivaz que lhe rompia dos olhos negros e rasgados. Tinha os cabelos naturalmente encaracolados e curtos. Talhe esbelto e elegante, colo voluptuoso, pé pequeno e mãos de senhora. É impossível que eu esteja a idealizar esta criatura que há tanto me desapareceu dos olhos; mas não estarei muito longe da verdade.”

Conto Mariana, do Machado de Assis.

Todos os contos do Machado estão na internet, sabia?


Leituras do final de semana

08.05.2010

“Meu filho, não seja assim, fale um pouco comigo, eu quero tanto que você fale comigo, você vê, meu filho, eu preciso escrever, eu só sei escrever as coisas de dentro, e essas coisas de dentro são complicadíssimas mas são… são as coisas de dentro. E aí vem o cornudo e diz: como é que é, meu velho, anda logo, não começa a fantasiar, não começa a escrever o de dentro das planícies que isso não interessa nada, você agora vai ficar riquinho e obedecer, não invente problemas”

Fluxo, em Fluxo-Floema, Hilda Hilst

“Nunca observou, caro senhor, que nossa sociedade se organizou para este tipo de liquidação? Naturalmente, já deve ter ouvido falar dos minúsculos peixes dos rios brasileiros que se atiram aos milhares sobre o nadador imprudente, e limpam-no, em alguns instantes, com pequenas mordidas rápidas, deixando apenas um esqueleto imaculado. Pois bem, é esta a organização deles. ‘Quer ter uma vida limpa? Como todo mundo?’ É claro que a resposta é sim. Como dizer não? ‘Está bem. Pois vamos limpá-lo. Pegue aí um emprego, uma família, férias organizadas.’ E os pequenos dentes cravam-se na carne até os ossos.”

A Queda, Albert Camus


Meus filhotes

07.05.2010

E estão saindo do forno os meus primeiros livros. Não, não os que eu um dia escreverei; os que eu ajudei a fazer mexendo no texto um pouquinho aqui, um tantinho ali. Minha corujice é tanta que até esses eu considero um pouco meus.

No ano passado, pela Bei, já tinha sido publicado “Os jantares que não dei”, com receitas maravilhosas e crônicas fofas da Bettina Orrico. Agora, pela mesma editora, estão saindo dois: “Roberto Mícoli”, com texto do querido Mario Gioia, e “Contos da Tia Lenita”, com textos lúdicos no português de Portugal.

Pela Cosac Naify, já foi anunciado (inclusive nos jornais) o “Pelé – Minha vida em imagens”. O título é autoexplicativo: são fotos do rei em diversos momentos da sua vida, com texto que vai explicando sua carreira no futebol. Super destaque para a parte gráfica – o livro tem pequenos bolsinhos com encartes, como um jornalzinho da época.

E tem outros pela Cosac, mas eu conto quando puder…


Livro por email

29.04.2010

Vocês viram isso? É dica da @fabimnogueira: o site Leitura Diária manda emails diários (ou feeds ou texto para WAP) com trechos de livros que você escolhe. A biblioteca não é uma coisa de Alexandria, mas tem coisas legais. Por exemplo, vou me cadastrar pra receber O Capote, do Gogol (não sei de quem é a tradução…). Tem 14 obras do Machado de Assis. Vou reler A Metamorfose (baratas, baratas…).

Dá pra escolher os dias em que você quer receber, o horário e trechos de quantos minutos de leitura (de 5 a 30 minutos). Aí o site calcula o dia em que você vai terminar a leitura.

Prático, vai? E bom pra quem quer dar uma pausa no trabalho…

Editando: chegou a primeira parte do Kafka e não sei vou passar da primeira frase. Era pra ser uma das melhores da história da literatura e a tradução usa “inquietantes” ao invés de “intranquilos” para os sonhos do Gregor Samsa. Não dá, né? Esta é um clássico!