Jogos de futebol são como as histórias de amor?

09.06.2010

(em homenagem à linha editorial do Blog das Perguntas)

“Eles compõem um retrato, mesmo que aproximativo, e que consiste afinal numa versão, entre as que seriam possíveis, dos acontecimentos. Considerados de uma maneira genérica, eles descrevem – nem que seja estatisticamente – os fatos, incluindo muitas vezes aquela margem dúbia entre ‘o que poderia ter sido’, e que tem de ser vencida, além do adversário, antes de selados inapelavelmente pelo sacrifício final – o gume duplo que separa vencidos e vencedores, dando a uns uma cota de corte no desejo e a outros a imantação mítica, mas provisória, da investidura num status superior, que se quer total. O apito final, como a morte, sela o sentido do acontecimento, mas sem sossegar necessariamente as virtualidades que o jogo desencadeia, as promessas que ele quase realizou, a multidão de alternativas que ele desenha.”

trecho de Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik

Anúncios

Partida

13.05.2010

* para o Vitor, que me encomendou um texto sobre futebol. Esse é de 2006, acho que ainda está atual. :P

Estavam todos reunidos na frente das tvs quando anunciou que tinha chegado sua hora: ia pendurar as chinelas. Pediu licença ao professor que há anos não ensinava português. Ele não gostou, como sair agora que estavam analisando as cruzadas? Tentou pelo meio: não podia fazer nada, melhor que ficar sentado naquele banco. O professor fez que não entendia, ele desistiu, linha de fundo. Jogou tudo por baixo das canetas, deixou o homem falando sozinho.

Saiu pela cozinha, nem deu bola pra chaleira, apitando. Sentou a última vez no banco para se preparar. Respirou fundo, levantou, andava de um lado para o outro. Assustou o gato que passava desatento quando escalou o banco. E o gato subiu no telhado.

Parece que foi zebra, não se sabe ao certo; o fato é que o gato deu um pulo e fez o corte de carrinho, e ele que estava no contrapé, cambaleia pra cá, balanceia com jogo de corpo, o voleio desequilibra pra lá, não adiantou nem tentar puxar a camisa, já estava no travessão: o velho se estatelou na pequena área.

E não fez mais nada: estava impedido. Morte súbita.


Meus filhotes

07.05.2010

E estão saindo do forno os meus primeiros livros. Não, não os que eu um dia escreverei; os que eu ajudei a fazer mexendo no texto um pouquinho aqui, um tantinho ali. Minha corujice é tanta que até esses eu considero um pouco meus.

No ano passado, pela Bei, já tinha sido publicado “Os jantares que não dei”, com receitas maravilhosas e crônicas fofas da Bettina Orrico. Agora, pela mesma editora, estão saindo dois: “Roberto Mícoli”, com texto do querido Mario Gioia, e “Contos da Tia Lenita”, com textos lúdicos no português de Portugal.

Pela Cosac Naify, já foi anunciado (inclusive nos jornais) o “Pelé – Minha vida em imagens”. O título é autoexplicativo: são fotos do rei em diversos momentos da sua vida, com texto que vai explicando sua carreira no futebol. Super destaque para a parte gráfica – o livro tem pequenos bolsinhos com encartes, como um jornalzinho da época.

E tem outros pela Cosac, mas eu conto quando puder…


Paralelo: futebol

27.07.2009

“O jogo estava perto de acabar e o placar ainda não tinha sido aberto. Uma partida de futebol dura noventa minutos – dois tempos de 45 minutos – e até então todas as bolas chutadas em direção às redes tinham ido para fora ou tinham sido defendidas pelas goleiras. As americanas chutavam mais a gol que as chinesas e pareciam impulsionar a bola com mais força e mais longe, além de ocupar mais espaços no campo quando corriam para assumir formações ofensivas ou defensivas. Mas as chinesas me davam a impressão de levar vantagem no jogo de equipe e de conseguir prever para onde iria a bola. Pareciam pressentir o desdobramento de cada lance da partida, e como o antigo astro do basquete Dennis Rodman – autêntico gênio da geometria, na medida em que previa as trajetórias de bolas errantes que ricocheteavam nas tabelas e nos aros das cestas -, as chinesas estavam sempre uma fração de segundo antes no ponto em que chega a uma bola passada por uma companheira ou onde pudessem interceptar uma tabelinha entre duas adversárias. As chinesas evitavam perder a bola avançando com passos curtos e mantinham a posse de bola com dissimulações – retinham a bola entre os pés, passavam um pé sobre ela, dançavam um samba, uma rumba e depois balançavam os quadris e a cabeça para desequilibrar as adversárias e abrir espaço suficiente para lançar um passe longo para uma companheira que investia na direção do gol das rivais.

Num dado momento, no finalzinho da partida, as chinesas tiveram uma chance de abrir o marcador. Depois que as americanas permitiram que a bola saísse pela linha de fundo, a chinesa que bateu o escanteio imprimiu à bola uma trajetória curva na direção das traves, bem diante de duas jogadoras prontas para chutá-la ou cabeceá-la para as redes. Mas antes que conseguissem fazer isso, a goleira americana avançou e afastou o perigo com um soco, atingindo não só a bola, mas também a cabeça de uma companheira, e com tanta violência que a americana caiu estendida no chão. Tendo perdido a consciência por alguns momentos e incapaz de se reequilibrar depois que a ajudaram a pôr-se de pé, a moça saiu de campo carregada e não retornou ao gramado. Sua substituta saiu-se bastante bem e a peleja prosseguiu sem novas oportunidades de gol para nenhum dos lados até o fim do tempo regulamentar.” 

Gay Talese, “Vida de escritor”. Companhia das Letras, 2009

 

“Entre os gols dessa época que se perderam da memória coletiva, escolho um que não é de Pelé, mas de Coutinho, e não aconteceu na Vila Belmiro, mas no Maracanã, numa noite de 1962, na primeira partida da decisão do Mundial Interclubes, entre Santos e Benfica. A bola foi lançada pelo alto, vinda da intermediária pelo lado direito, caindo sobre o bico esquerdo da pequena área, onde estava Coutinho. Ele matou de efeito, sem deixá-la cair no chão, aproveitando tanto o impulso natural da bola quanto o seu desenho em curva para dar um chapéu de fora para dentro num primeiro zagueiro, e, em seguida, um outro chapéu simétrico num segundo zagueiro, antes de concluir, sem que a bola tocasse o chão.

Vi esse gol, de uma perfeição rara, uma única vez – ele é de antes da existência do replay. A televisão em preto-e-branco dobrava hipnoticamente o branco do uniforme alvinegro, redobrado ainda pelo contraponto visual da pele negra com a bola branca (que só se usava, então, para jogos noturnos). Tudo num flash – àquela época espocavam flashes, confundidos na luz da tela e na da memória com o próprio gol fulminante em tempo-espaço mínimo. Mais do que produzir o efeito de “uma pintura”, ele me lembra aquela técnica de desenho japonês em preto-e-branco, o sumiê, em que o artista arremata a obra com uma única pincelada. Não conheço ninguém mais que se lembre desse gol. Um colega de ginásio me disse na época que o tinha visto no cinema, mas nunca o reencontrei nas raras e extasiantes retrospectivas do Canal 100. O filme Pelé Eterno não o mostra, reduzindo-o literalmente a uma mutiladora fração de segundo. Li num jornal, dois dias depois do jogo, que, ao embarcar de volta para Portugal, um dirigente do Benfica declarou sobre o gol, numa autêntica chave de ouro camoniana, que valera a pena atravessar o oceano, só para sofrê-lo.”  

José Miguel Wisnik, “Veneno remédio – o futebol e o Brasil”. Companhia das Letras, 2008

 

(e o Esporte Espetacular está fazendo uma enquete sobre o drible mais bonito, mas no site só dá pra votar, não dá pra assistir. Quem não viu ontem, não vota. Que sem graça)