Meu destino foi ser star

06.07.2010

“Coitada da Gisele!”, eu suspirava internamente, enquanto o som de cliques me perseguia pelo teatro. Ok, pompa demais: eu só estava morrendo de vergonha de ser flagrada pelo fotógrafo a cada gesto meu. Mas essa era a ideia, afinal. Fui até o Teatro Centro da Terra, em Perdizes, participar do espetáculo Teatrokê, dirigido pelo Ricardo Karman, para contar a experiência na Bravo! de julho.

O texto vocês encontram na revista. Aqui, dá pra ver o vídeo da minha performance. O meu amante em cena é o namorado, a propósito.

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Morar na rua em Ipanema

14.05.2010

Está nas bancas, com chamada principal na capa, e no site, para assinantes: matéria da Paulinha sobre os moradores de rua de Ipanema, na piauí de maio. Quem quer mais também pode ouvir o podcast.

Strongly recommended.

Um trecho:

“Eram quase duas da tarde quando Gustavo Villas-Boas contou as moedas no bolso e resolveu comer alguma coisa antes de voltar para a porta do banco. A lanchonete mais próxima era o KFC, mas ele torceu o nariz: detesta frango. Andou mais uma quadra e chegou ao McDonald’s.

Ao entrar na fila, percebeu que os demais clientes o encaravam com insistência. Fez de conta que não era com ele. Ao chegar sua vez, pediu a ‘promoção número 1 para viagem’, pela qual pagou 13 reais. ‘Vou levar isso para minha mulher, para ver se ela melhora de cara’, disse-me Villas-Boas. ‘Ela falou que eu estava fedendo, mas ontem mesmo tomei banho.’

Villas-Boas é muito magro, tem a pele tomada por escaras, vários hematomas ao longo das pernas e, de fato, seu mau cheiro era percebido de longe. Ele disse ter 16 anos, mas levando em consideração datas e situações que menciona, é provável que tenha mais. Falou que foi expulso de casa pelo padrasto aos 5 anos e desde então passou a morar na rua.

Desde os 12 anos, vive com a mulher, Patrícia, com quem tem um filho de 3 anos. Ela está grávida novamente. Villas-Boas a conheceu depois que ‘um gringo muito bacana’ lhe deu de presente 350 reais. ‘Eu ficava olhando para ela na praia e, quando peguei o dinheiro, fomos ao McDonald’s. Gastamos tudo. Aí ela viu que eu era legal e foi morar comigo’.

Quando o entrevistei, eles haviam brigado e Patrícia pedia esmola na Praça General Osório, a poucas quadras dali. O ponto do casal é a porta do banco Itaú, na rua Visconde de Pirajá. É onde Villas-Boas pode ser encontrado de segunda a segunda, com a palma da mão direita voltada para cima, pronunciando as mesmas frases: ‘Senhora, me dá uma ajuda?’, ‘Moço, me paga um lanche?’ e ‘Tem um trocado?’.

A escolha do banco não é estratégica. ‘É só um ponto, não fico achando que vão me dar o dinheiro que eles pegaram lá.’, disse. Para ele, os dias, meses e anos na rua são quase indistinguíveis. ‘Eu sei que o tempo está passando quando o banco coloca enfeites de Natal na calçada’, disse. ‘Aí, já é dezembro. Quando é Páscoa, tem coelho por todo o lado’, explicou.”


Congresso

05.05.2010

Porque eu trabalho, não sou senhora do meu tempo. E por isso não estou frequentando o congresso de jornalismo cultural da Cult. Mas estou acompanhando alguns tweets da @revistacult, e hoje foi a vez de Nuria Azancot, redatora-chefe do El Cultural (suplemento do El Mundo) falar.

Dois tweets me interessam.

“Nos escritórios de editores, se fala menos de literatura e muito mais de economia, de resultado editorial”

“A cultura se tornou uma economia, que deve agradar a muitos consumidores”

Não achei a cobertura completa do congresso, alguém sabe de um blogueiro-estudante-de-jornalismo que esteja escrevendo mais de 140 toques?


Brand new start

11.04.2010

E hoje é meu último dia trabalhando sem contrato assinado. Isso tem dois significados: que é meu último dia sem emprego e que eu estou trabalhando nesse último dia.

A data não é importante, mas o momento tem alguma relevância. Em maio, vou celebrar um ano do último salário que ganhei, no dia 5. O mesmo dia em que, se tudo der certo, vou receber o primeiro salário do novo emprego. E até quem não acredita em destino etc precisa concordar que isso é uma bela coincidência.

Financeiramente, não haverá nenhuma grande transformação. Quer dizer, o banco vai continuar recebendo mais ou menos a mesma injeção financeira, mas agora ela virá periodicamente, todo mês, sem altos e baixos no saldo. Profissionalmente, muda pouco, também: meu trabalho vai ser com jornalismo, e é jornalismo que eu vinha fazendo. Meu trabalho vai envolver personagens, e é para isso que eu vinha me dedicando.

Mas vai ter, sim, uma mudançona: eu vou sair de casa todo dia bem cedo e vou chegar no final do dia, começo da noite. Eu vou ter final de semana (ao que tudo indica). E ninguém mais vai achar que a minha vida é boa, mesmo não sendo. Explico: em quase um ano de frila, não fui ao cinema à tarde nenhuma vez. Foi um desperdício, vendo em retrospecto, mas eu não realizei esse sonho de todo mundo que tem emprego fixo. E não o fiz porque fui deixando para uma semana em que eu estivesse realmente livre, para quando passasse um filme que eu realmente quisesse ver, e assim por diante. Não fui.

Estou começando a montar uma lista do que eu aprendi e do que eu vou fazer um dia se eu for frila de novo. Eu podia até escrever um livro de auto-ajuda, já pensou? E a lição principal, que eu vou começar a espalhar, é que a grama do vizinho sempre parece mais verde. Meaning: a gente nunca vai estar satisfeito e pra sempre vai ficar imaginando que o melhor seria jogar tudo pro alto e fazer o oposto do que vem fazendo.  Mentira.


Dia do jornalista

07.04.2010

“Como você sabe que um jornalista pegou suas palavras cruzadas? Quando ela tá mais comentada que resolvida.”

(da melhor amiga do mundo, que não tem nada a ver com jornalistas mas aguenta reclamação o dia todo, todo dia. feliz dia do jornalista, gabi!)


O tal do Daime

23.03.2010

Eu não quero saber das discussões da Veja. Eu vi a capa, achei um nojo e não vou ler a matéria.

Lalalalala, tapando os ouvidos para quem gostou daquilo.

Eu vi, sim, dois textos muito bons – nem a favor, nem contra, porque isso é o de menos. O que importa é neguinho não falar besteira porque é preconceituoso.

Na Vice (revista que eu preciso frequentar mais), dica do Gabriel Mitani: “O dia em que tomei Daime com Glauco”, de um não adepto da religião.

No blog Ciência em Dia, a íntegra das respostas sobre a planta com que é feito o chá, que Marcelo Leite obteve de Draulio de Araujo e Sidarta Ribeiro, co-autores de pesquisa do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS). Dica do Raoni Maddalena.


A vida não tem solução

18.03.2010

Mesmo você, que talvez nunca tenha visto um freelancer de perto, já ouviu falar de algumas peculiaridades que caracterizam a vida de quem trabalha em casa e conhece os conselhos que enchem o nosso mundo de boa vontade. Tenha um horário fixo, para não avançar madrugada adentro no trabalho. Tire o pijama e vista uma roupa que possa ser vista em sociedade, para afastar a preguiça. Saia de casa às vezes, para evitar a depressão. Junte uma grana, para atravessar os meses de trabalhos escassos. And so on.

Eu trabalho no meu doce lar, por opção, há quase um ano. Nada disso que todo mundo fala faz muito sentido para mim. Eu tenho horário fixo para acordar, mas não posso decidir meu horário de terminar nem se eu vou ter final de semana. Eu tenho preguiça às vezes mesmo de roupa, e isso não significa que eu não vou trabalhar. Eu não posso sair de casa porque eu tenho muito trabalho para fazer, então a depressão que se contente em aparecer só nos meus sonhos. Juntar grana? Essa é a melhor parte da piada. Deve ser um combinado de todo mundo que quer ser freelancer mas não tem coragem: vamos dar conselhos de saúde financeira pra ele, mesmo sabendo que é impossível. Assim ele vai se achar um bosta por não conseguir juntar dinheiro, ainda que se mate de trabalhar, e vai voltar a ter um emprego e não vai ser mais feliz que a gente.

Bem, crianças, a vida é mesmo difícil. Outro dia eu perguntei para uma amiga, por que mesmo eu pedi demissão? Ela sabia que era uma piada e não se deu ao trabalho de responder. Eu sei muito bem por que pedi pra sair todas as vezes em que isso aconteceu, no hard feelings, e a minha questão eram todos os contras que ninguém nunca tinha me contado que eu iria enfrentar.

Eu não tenho mais aquele terrível problema de ter que almoçar com pessoas da firma de quem eu nem gosto tanto, mas com quem sou obrigada a conviver. As brigas que nunca se configuram brigas, apenas indecisão sobre onde vamos hoje?; aquele que fala demais e só de si; aquele que faz piadas malas; aquele que não tem assunto nenhum que interesse; aquele que é vegetariano e reclama se não tem soja; aquele que come muito devagar e atrasa todo mundo porque ainda por cima não para de falar; aquele que é contra o cafezinho.

Na minha vida, eu normalmente almoço sozinha – em casa, olhando para a parede ou para a sacada, em silêncio, um lugar só à mesa, ou em algum restaurante de quilo que não fique muito longe e seja barato. Claro que dá pra almoçar com quem ainda tem seus horários fixos, mas colegas de firma costumam comer com colegas de firma, e isso é um fato, nem venham discutir comigo.

Eu não conheço mais o que é trânsito. Estar no ponto na hora certa para não ter de esperar por vinte minutos o ônibus ideal; começar a suar poucos minutos de ter saído do banho por causa da lotação; as buzinas impacientes dos carros que não entendem que, às vezes, os semáforos ficam vermelhos; duas ou mais horas por dia desperdiçadas em traslados que parecem uma peregrinação para o abate; sair correndo de sapatinho e desmanchar todo o cabelo porque o ônibus de que você precisa já está fechando as portas e vai dar partida.

Na minha vida, eu não sei mais quem são os cobradores nem quanto tempo eu levo de um lugar ao outro, e eu não sei mais quem são as pessoas que fazem todo o dia os mesmos caminhos, e eu não tenho mais moedinhas trocadas na carteira, e eu não ouço mais mp3 player/Ipod, e eu não sei mais o que é dormir embalado pelo balanço do ônibus depois de um dia cansativo, nem o que é ter uma dorzinha de cabeça por ler em movimento, nem encontrar de surpresa algum conhecido.

Eu não tenho mais um chefe atrás de mim o dia todo, tampouco preciso conviver com pessoas muito diferentes de mim. A mocinha que faz fofoca; a outra que desfila se imaginando linda; o menino que nunca faz as coisas que lhe foram pedidas; a criatura que ouve música em volume altíssimo e acaba compartilhando seu geralmente péssimo gosto musical com todo mundo; a colega carente que pede ajuda nos piores momentos possíveis; o chefe de outra área que imagina que manda em todo mundo que não é chefe, mesmo que não seja seu subordinado.

Na minha vida, as relações interpessoais só existem virtualmente. Quando eu quero muito fazer uma piada, eu preciso achar alguém online no Gtalk. Se eu quero mostrar alguma revista, livro, papel para alguém, eu preciso digitar ou achar algum link, ou, quando eu encontro um santo muito desocupado, dá pra ligar a câmera e mostrar rapidinho. Ninguém me diz saúde se eu espirro, assim como ninguém vai ficar sabendo se eu bati o joelho na ponta da mesa e to morrendo de dor. Ou se eu estou com dor de cabeça, ninguém vai me oferecer um tylenol. Às vezes, eu passo o dia todo sem falar uma única palavra. E nem me dou conta disso.

Eu não preciso mais abastecer meu guarda-roupa de tempos em tempos para ficar apresentável na firma (e para meus entrevistados); não preciso inventar combinações novas todo dia para não repetir roupa; não preciso ficar com o pé doendo dentro de um sapatinho lindo mas apertado; não preciso andar com bandaid na bolsa; não preciso passar maquiagem todo dia (o que irrita os meus cílios, cá entre nós), não preciso fazer escova na franja!

Na minha vida, todas as roupas são roupas de trabalho, até aquela camiseta que já deveria ter virado pano de chão, de tal modo que é possível desconfiar, às vezes, se a roupa escolhida para uma conversa de emprego é mesmo adequada. Os meus sapatos estão velhos, e eu não preciso trocar; as minhas calças estão gastas, e eu não tenho motivo para procurar outras. Eu engordei e ninguém percebeu. Eu esqueci como se faz uma maquiagem básica, porque agora eu só uso maquiagem à noite (quando tudo bem passar muito lápis).

E, ontem, um evento assustador: eu passei o dia fora, resolvendo pendências, encontrando amigos, indo de um curso ao outro. Coloquei o sapato arrumadinho mais confortável para aguentar o dia todo e fui, e peguei ônibus, e caminhei, e falei com as pessoas, e tudo isso que vocês fazem todo dia. Depois de pouco tempo, eu já estava exausta, com bolhas nos pés, meu baço doendo das caminhadas em ritmo apressadinho, a pele suja, a roupa ficando gasta ao longo do dia, o cabelo se estragando no vento. Eu desaprendi tudo.

Hoje de manhã, o @bomdiaporque, um dos meus companheiros nessa vida de mau humor virtual, mandou uma boa. “Ter que acordar pra ir pro trabalho é chato. Acordar e não ter emprego é pior ainda. Enfim, a vida não tem solução”. Eu também não achei um caminho ainda, mas, combinadores da desgraça alheia, saibam que a minha balança ainda pende pra minha situação atual. Com toda a solidão e ensimesmamento que ela comporta, mas também com as liberdades.