Meu destino foi ser star

06.07.2010

“Coitada da Gisele!”, eu suspirava internamente, enquanto o som de cliques me perseguia pelo teatro. Ok, pompa demais: eu só estava morrendo de vergonha de ser flagrada pelo fotógrafo a cada gesto meu. Mas essa era a ideia, afinal. Fui até o Teatro Centro da Terra, em Perdizes, participar do espetáculo Teatrokê, dirigido pelo Ricardo Karman, para contar a experiência na Bravo! de julho.

O texto vocês encontram na revista. Aqui, dá pra ver o vídeo da minha performance. O meu amante em cena é o namorado, a propósito.

Anúncios

Meu namorado Oscar

20.06.2010

Concluímos, namorado e eu, que temos cara de um casal de jovens disponíveis e abertos a novas experiências. Nos últimos tempos, sempre que uma peça tem alguma interação, nós somos os interagitadores. Ontem foi a vez de “Cine Belvedere” (recomendadíssimo, acaba semana que vem); namorado virou Óscar, o noivo imaginado/morto/real? da empregada Pacha. Deu até beijinho – segundo ele, só no rosto porque, apesar das insistências da personagem, ele não parou de pensar que seria um homem morto e solteiro caso acatasse e beijasse na boca.

(É CLARO que a personagem não estava pedindo na boca de verdade, era um noivo que ela imaginava… Enfim. Deixa ele acreditar)

Minutos depois de namorado virar Óscar, a personagem que estava bolinando meu namorado dá um grito e aponta para os meus pés: “UMA BARATA!”. Ai, gente, que piada de mau gosto, e bem comigo. Claro que não tinha barata alguma, mas eu sou doida de não levantar os pezinhos? Não dei escândalo, fui fina. Mas quem disse que eu dormi sossegada depois? Sonhei a noite toda com barata.

Anyway, tudo isso era um pretexto pra dizer que “Cine Belvedere” foi até agora a segunda melhor peça do ano, perdendo apenas para “In On It”. E acaba semana que vem, vocês prestaram atenção nisso? Mais uma informação: são só 16 pessoas no público por sessão. Corram (e mantenham os pés pra cima).


Pareceres de Twitter

04.06.2010

O teatro do Sesc Santana tem um cheiro que parece muito cheiro de bola de tênis nova.

A cenografia de “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar”, no teatro do Sesc Santana até domingo, parece muito a cenografia de “Strindbergman”, que esteve no teatro do Espaço Viga.

A peça “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar” não parece muito aquilo que propagandeiam como “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar”, uma peça com Paulo José.

Parece que o cheiro de bola de tênis mais o didatismo do texto mais a interpretação da Ana Kutner mais o sumiço do Paulo José me fizeram querer sair correndo de Santana.

Fica até domingo, mas parece que eu não estou recomendando.


In On It reestreia

08.05.2010

Raramente assisto duas vezes o mesmo filme. Às vezes acontece de passar na televisão, e eu vejo, ou de eu ficar obcecada por algum detalhe, aí eu vejo mesmo. Mas é raro. Peça de teatro, então, são poucas aquelas a que eu quis voltar. “Rainhas”, da Cibele Forjaz (já mencionada), é uma delas, e eu não voltei, porque os ingressos estavam sempre esgotados, porque depois tinha muita coisa nova pra assistir, depois…

Mas eu revi duas: “Vaca de nariz sutil”, no Parlapatões, e “Noite dos palhaços mudos”, primeiro no Parlapatões e depois no Memorial, na mostra de cinema latino-americano. Não que eu tenha amado “Vaca…”; da primeira vez gostei, achei interessante, e depois o namorado quis ver, eu acompanhei. E na segunda vez estava muito diferente, final de temporada, atores trocados, um certo relaxo, gritaria de mais, cuidado de menos. Já “Noite…” estava idêntica, ou assim me pareceu. Talvez por ser tão coreografada, não houvesse tanto espaço para mudança de tempos; talvez por quase não haver falar, não fosse possível mudar tanto o tom da coisa. Anyway, adorei as duas vezes, embora a primeira tenha sido mais impressionante porque o palco menor combinava mais com o espetáculo.

Assim que saí da sala, neste ano, de “Simplesmente Eu – Clarice Lispector”, no CCBB do Rio, e do teatro da Faap, depois de “In On It”, eu decidi que precisava rever as duas. A primeira porque eu fiquei muito emocionada e impressionada quando assisti e eu quero ter essa sensação de novo; a segunda porque eu precisava rever tudo desde o início sabendo como seria o final. Para prestar atenção nos detalhes do texto.

Pois ontem “In On It” reestreou aqui em São Paulo, agora no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. A produção liberou mais ingressos em cima da hora e eu consegui o meu quando ia até a bilheteria sem esperanças confirmar que estava mesmo lotado. Eu não sabia ainda que eles tinham ido para Jundiaí, se apresentar no enorme Polytheama; o palco da Faap me parecia grande demais para tanta intimidade, e eu estava ansiosa para vê-los no Eva Herz, mais aconchegante.

Da segunda vez, eu acho, fica melhor. Mas de um jeito diferente. Porque quem vê primeiro aplaude quando não tem que aplaudir e as surpresas são deliciosas; eu ri muito e chorei dolorido no final, sofri, sofri. A última cena é um susto; na verdade, tudo que acontece depois do momento em que não se “deve” aplaudir é muito forte. Posso contar só um pedacinho? Eles dançam juntos e dói demais assistir. E eu que sempre tive medo das despedidas banais, “tchau, até daqui a pouco”, do beijo mal dado porque logo o outro está de volta, do tchauzinho pela janela que pode ser o último… É, dói.

Mas, como eu dizia, da segunda vez… Não deixa de doer, mas você já sabe que vai machucar e quase se protege. Eu prestei mais atenção ao começo da peça e aos elementos que iam sendo jogados, é incrível, volta tudo ao final, costuradinho, com sentidos, mais forte. Tá, todo mundo já sabe que o texto da peça é excelente (alguém sabe onde eu posso conseguir o texto dessa peça? Por favor?), e o Fernando Eiras e o Emilio de Mello são precisos. E todo mundo ri, e todo mundo sabe quando ficar quieto. O palco menor ajuda nas cenas mais intimistas, deu certo; mas o namorado observou que outras perderam um pouco a força que tinham. A cena do beisebol, por exemplo, era mais interessante no palco grande, com as grandes distâncias. O final também, Eiras sozinhozíssimo lá no meio. Não sei se foi erro da iluminação ou se mudaram esse final, mas o blackout demorou mais dessa vez e, para mim, a cena ficou mais sutil. Eu puxei os aplausos.


Cria atrevida

07.05.2010

Por um motivo que escapa ao meu entendimento, a Bravo! não está mais colocando a revista no site. Então só é possível ver os complementos online das matérias, o que não faz muito sentido sem as matérias. Mas quem sou eu pra opinar.

Nessa edição de maio, com a capa da Lady Gaga, fiz um perfil do Lee Thalor, ator do CPT que está protagonizando a peça “Policarpo Quaresma” (Teatro Anchieta, Sesc Consolação, até 6/06). Não posso dar link algum para vocês lerem na íntegra, vai ter que passar na banca e folhear (tem só 3 páginas). Um trechinho é assim:

Após situar Thalor como o terceiro dessa linhagem nobre [formada por Cacá Carvalho e Luís Melo, atores que se destacaram no CPT], Antunes cutuca: “E ele é um chato”. O ator tenta corrigir: “Eu sou muito atrevido. Eu falo o que eu acho, ainda que ele não me dê essa liberdade”. “Não é atrevido, não: ele é chato”, rebate Antunes. É tudo cena: quando um fala do outro, transbordam palavras de carinho e admiração. Antunes enaltece o pupilo: “Todo ator deveria ter o conhecimento e o elã que ele tem. Eu aviso os futuros diretores que vão trabalhar com ele: preparem-se. O Lee é uma máquina, um tanque. Ele passa por cima se você não estiver atento”, diz.

Para ver imagens da trajetória do Lee Thalor, dá pra clicar na galeria de imagens do site da Bravo!. Eu aconselho fazer isso depois de ler a matéria (que não está no site).


Acontecimento

05.05.2010

Você não está com saudade do Sesc Pompeia?, o namorado me perguntou ontem. Eu estou. Passamos lá o último final de semana, na maratona teatral d’“O Idiota”, e agora não sei mais ficar sem os tijolinhos de toda noite. Mas logo resolvo: amanhã estreia “Máquina de Abraçar”, sobre uma médica que cuida de uma paciente autista. O texto é do espanhol José Sanchis Sinisterra e foi criado a partir de uma entrevista que uma autista deu para Oliver Sacks (no livro “O Antropólogo em Marte”). A Barbara Heliodora elogiou bastante (“É um espetáculo lindo, emocionante, de alta categoria, com uma interpretação que apresenta imensas dificuldades sendo executada de modo exemplar”). E tem a Mariana Lima fazendo a autista – acreditam que nunca vi nada com ela?

Mas, então, “O Idiota”.

O Luiz Fernando Ramos, da Folha, diz que a peça se candidata a grande acontecimento teatral do ano. Eu concordo, acho; ainda que não tenha sido arrebatador, para mim, como foi “Rainhas”, outro da Cibele Forjaz, gostei bastante do conjunto. Um pouco mais, um pouco menos de algumas interpretações; razoavelmente das músicas que eles cantam. Mas e cenário e iluminação?

Foto: Lenise Pinheiro, do blog Cacilda.

A adaptação, fiquei sabendo, é do Aury Porto, que vive o idiota da peça, o príncipe Míchkin. A ação é toda centrada nele, nas relações que ele desenvolve com amigos, parentes e amadas. Segundo dizem, foi preciso dois anos para condensar personagens e histórias das centenas de páginas em sete horas de espetáculo (divididas em três horas na primeira parte e duas horas em cada uma das outras duas). E as doze cenas vão acontecendo em ambientes diferentes do galpão do Sesc Pompeia.

Assim: logo depois que os atores se trocam e maquiam na entrada, sob o olhar do público, sentamos em cadeiras dispostas em cruz, que compõem os vagões do trem onde se conhecem alguns dos personagens. Segue uma procissão, que dá a volta no galpão para terminar na casa da prima do protagonista, do outro lado do galpão; a sala em que eles se encontram é decorada por um tapete de açúcar (ou era areia branca? Acho que era açúcar) onde acontece uma das cenas mais bonitas dessas primeiras três horas. Depois se aproxima, sobre rodinhas, a casa em que Míchkin ficará hospedado, e terminamos em outra sala, para a cena final. E isso é só a primeira parte.

A iluminação (de Alessandra Domingues) valoriza ainda mais a cenografia (de Laura Vinci), principalmente nos jogos que a luz faz com os vazios – das estampas das toalhas, do vão entre os fios de uma cortina. Os embates nos corredores cheios d’água e o confronto no trepa-trepa (parte 3) emocionaram bastante gente; as cenas de cantoria são especialmente bonitas (e me fazem pensar que a Cibele depurou Zé Celso); a casinha pegando fogo, no final da primeira parte, é linda, linda.

Foto: Lenise Pinheiro, do blog Cacilda.

Mas, no final da saga, fiquei um pouco triste.

Porque não encontraria mais aqueles personagens (ficamos íntimos, claro, três dias seguidos!), não voltaria ao Sesc toda noite. E principalmente porque eu sei que vai ser difícil encontrar espetáculos tão redondinhos por aí. E olha que a gente procura.

(Mais fotos: na Galeria de imagens da Bravo)


O essencial

09.04.2010

Estreia hoje em São Paulo “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, monólogo da Beth Goulart no papel da escritora. A Beth acaba de ganhar o Shell de melhor atriz, no Rio, por essa peça, e isso não é de se estranhar: ela está excelente, e não só por se parecer tanto fisicamente com a Clarice.

Eu tinha muito medo de me deparar com significados da obra de Clarice que se aproximassem da exposição que o Museu da Língua Portuguesa fez sobre ela: o escuro, o difícil, os véus. E essa foi a surpresa extremamente positiva. Foi a própria Beth que fez a dramaturgia, entrelaçando aspectos biográficos, trechos significativos da obra e a famosa entrevista concedida à TV Cultura pouco antes de sua morte. E ela entende muito de Clarice, a gente sente: fala do feminino, de deus, do cru, de escrever. De tal maneira que é quase uma apresentação à obra da Clarice, o que pode ser que aproxime muita gente dos seus escritos – aquelas pessoas que dizem não serem tocadas pelos textos, ou até quem considera tudo muito difícil.

Por outro lado, a semelhança física é tão impressionante, que por alguns momentos eu quis me deixar enganar, e fiquei acreditando que era ela, ali na minha frente, como nunca seria possível que acontecesse. Foi deliberado e, ainda assim, emocionante. E eu chorei.

Acho que todo mundo precisa ver essa peça. Eu quero que todo mundo veja e me conte o que sentiu. Eu não sei ainda definir muito bem, mas vou assistir de novo e pensar, e sentir, e escrever aqui. Vai ser difícil. Mas vale muito a experiência.