No ônibus, a língua

08.04.2010

Passageira: Qual é o último ponto da Angélica?

Cobrador (sonolento): É… No último ponto.

Passageira (estranhando a resposta): Tá, mas qual é o último ponto?

Cobrador (achando que a passageira tá de sacanagem, mas ainda sonolento): Ué, é no último ponto da Angélica.

Silêncio. Os dois se olham. Ela acha que ele tá sacaneando. Ele não entende por que ela acha isso.

Cobrador: É o último… Entendeu?

Ele dá uma risadinha sincera, que parece querer dizer “Minha senhora, não sei o que a senhora não entende”.

Ela ri, com certeza de que ele está sacaneando ela.

Passageira: Não, não entendi.

Cobrador: A senhora quer saber onde fica o último ponto da Angélica? O que tem perto?

Passageira: Não, eu quero saber qual é o último ponto da Angélica.

Cobrador: O último ponto é o último ponto, depois o ônibus vira para a rua X (fala o nome da rua que fica ao final da avenida Angélica, depois do último ponto de ônibus posicionado na avenida Angélica).

Passageira: Ah, então ele vai até o final da Angélica, lá é o último ponto.

Cobrador fica olhando, faz sinal de “sim” com a cabeça.

Ela passa o cartão na catraca, vira os olhos, bufa, balança a cabeça. Fica mal humorada na parte de trás do ônibus. Na certa pensa que o cobrador é burro.

Ele fica olhando com cara de quem não entende. Parece que perdeu o sono. Na certa pensa que a passageira não bate muito bem da cabeça.

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Propriedade particular

07.04.2010

A história que eu quis escrever um dia começava com uma moça colocando livros novos em uma estante. O narrador deixaria que o leitor soubesse que essa estante iria abrigar, dali em diante, livros dela e o novo marido dela; ele ficaria sabendo disso por meio de uma ceninha interna de ciúme, porque ela abriria um dos livros e daria de cara com uma dedicatória enigmática.

Eu não lembro de ter em algum livro meu uma dedicatória assim, pelo menos as poucas que eu tenho me parecem bem claras. E não sei se o namorado tem dedicatórias nos livros dele, pelo menos nos que eu já abri não tem. Mas eu tenho livros customizados: o do Barthes, mesmo, que eu citei ontem, tem algumas partes grifadas e outras são acompanhadas por carinhas :) que eu faço quando gosto do trecho. Acho simpático e me surpreendo às vezes quando revejo, fico pensando por que mesmo eu marquei aquelas linhas.

Tem um post no sempre bom Books Blog do Guardian sobre isso, hoje. O David Barnett conta que comprou livros numa banquinha e quando foi ver, havia cartas no meio deles. CARTAS. Ele tenta reconstruir a história mas é claro que isso é impossível. Eu já vivi uma experiência mais ou menos parecida. Duas, talvez.

Primeiro foi quando eu estava fazendo uma reportagem sobre Guimarães Rosa e seu passado como vice-cônsul na Alemanha e, além de devassar seu diário, fiquei remexendo em caixas do IEB, na USP, com documentos pessoais da esposa dele: fotos, agendas, papelada. Parece divertido, eu sei, mas comecei a me constranger quando me peguei descobrindo que dia e hora ela tinha marcado cabeleireiro.

Poucos meses depois, eu e a Paulinha descobrimos um jogo de cartões postais lindo num sebo no Rio – como era o mesmo o nome daquele lugar? Aquele que fica no cinema… Enfim, os postais estavam lá, e começamos a separar um monte deles, lindos e com escritinhos atrás. Levamos um susto: tinham todos a mesma destinatária, a sra. Branca esqueci-o-sobrenome, e tinham diferentes endereços, diferentes remetentes. Foi necessário fazer uma busca no Google, claro, e depois de analisar uma árvore genealógica, chegamos na possível família dela.

Eu gosto de pensar que deixei essas histórias para trás, que não penso mais na intimidade Guimarães Rosa, que não me arrependo de não ter comprado todos os postais da dona Branca. Mas é mentira: eu tenho um problema com memória e ainda vou escrever sobre isso. E não vai ser um post, vai ser mesmo uma história.


A vida não tem solução

18.03.2010

Mesmo você, que talvez nunca tenha visto um freelancer de perto, já ouviu falar de algumas peculiaridades que caracterizam a vida de quem trabalha em casa e conhece os conselhos que enchem o nosso mundo de boa vontade. Tenha um horário fixo, para não avançar madrugada adentro no trabalho. Tire o pijama e vista uma roupa que possa ser vista em sociedade, para afastar a preguiça. Saia de casa às vezes, para evitar a depressão. Junte uma grana, para atravessar os meses de trabalhos escassos. And so on.

Eu trabalho no meu doce lar, por opção, há quase um ano. Nada disso que todo mundo fala faz muito sentido para mim. Eu tenho horário fixo para acordar, mas não posso decidir meu horário de terminar nem se eu vou ter final de semana. Eu tenho preguiça às vezes mesmo de roupa, e isso não significa que eu não vou trabalhar. Eu não posso sair de casa porque eu tenho muito trabalho para fazer, então a depressão que se contente em aparecer só nos meus sonhos. Juntar grana? Essa é a melhor parte da piada. Deve ser um combinado de todo mundo que quer ser freelancer mas não tem coragem: vamos dar conselhos de saúde financeira pra ele, mesmo sabendo que é impossível. Assim ele vai se achar um bosta por não conseguir juntar dinheiro, ainda que se mate de trabalhar, e vai voltar a ter um emprego e não vai ser mais feliz que a gente.

Bem, crianças, a vida é mesmo difícil. Outro dia eu perguntei para uma amiga, por que mesmo eu pedi demissão? Ela sabia que era uma piada e não se deu ao trabalho de responder. Eu sei muito bem por que pedi pra sair todas as vezes em que isso aconteceu, no hard feelings, e a minha questão eram todos os contras que ninguém nunca tinha me contado que eu iria enfrentar.

Eu não tenho mais aquele terrível problema de ter que almoçar com pessoas da firma de quem eu nem gosto tanto, mas com quem sou obrigada a conviver. As brigas que nunca se configuram brigas, apenas indecisão sobre onde vamos hoje?; aquele que fala demais e só de si; aquele que faz piadas malas; aquele que não tem assunto nenhum que interesse; aquele que é vegetariano e reclama se não tem soja; aquele que come muito devagar e atrasa todo mundo porque ainda por cima não para de falar; aquele que é contra o cafezinho.

Na minha vida, eu normalmente almoço sozinha – em casa, olhando para a parede ou para a sacada, em silêncio, um lugar só à mesa, ou em algum restaurante de quilo que não fique muito longe e seja barato. Claro que dá pra almoçar com quem ainda tem seus horários fixos, mas colegas de firma costumam comer com colegas de firma, e isso é um fato, nem venham discutir comigo.

Eu não conheço mais o que é trânsito. Estar no ponto na hora certa para não ter de esperar por vinte minutos o ônibus ideal; começar a suar poucos minutos de ter saído do banho por causa da lotação; as buzinas impacientes dos carros que não entendem que, às vezes, os semáforos ficam vermelhos; duas ou mais horas por dia desperdiçadas em traslados que parecem uma peregrinação para o abate; sair correndo de sapatinho e desmanchar todo o cabelo porque o ônibus de que você precisa já está fechando as portas e vai dar partida.

Na minha vida, eu não sei mais quem são os cobradores nem quanto tempo eu levo de um lugar ao outro, e eu não sei mais quem são as pessoas que fazem todo o dia os mesmos caminhos, e eu não tenho mais moedinhas trocadas na carteira, e eu não ouço mais mp3 player/Ipod, e eu não sei mais o que é dormir embalado pelo balanço do ônibus depois de um dia cansativo, nem o que é ter uma dorzinha de cabeça por ler em movimento, nem encontrar de surpresa algum conhecido.

Eu não tenho mais um chefe atrás de mim o dia todo, tampouco preciso conviver com pessoas muito diferentes de mim. A mocinha que faz fofoca; a outra que desfila se imaginando linda; o menino que nunca faz as coisas que lhe foram pedidas; a criatura que ouve música em volume altíssimo e acaba compartilhando seu geralmente péssimo gosto musical com todo mundo; a colega carente que pede ajuda nos piores momentos possíveis; o chefe de outra área que imagina que manda em todo mundo que não é chefe, mesmo que não seja seu subordinado.

Na minha vida, as relações interpessoais só existem virtualmente. Quando eu quero muito fazer uma piada, eu preciso achar alguém online no Gtalk. Se eu quero mostrar alguma revista, livro, papel para alguém, eu preciso digitar ou achar algum link, ou, quando eu encontro um santo muito desocupado, dá pra ligar a câmera e mostrar rapidinho. Ninguém me diz saúde se eu espirro, assim como ninguém vai ficar sabendo se eu bati o joelho na ponta da mesa e to morrendo de dor. Ou se eu estou com dor de cabeça, ninguém vai me oferecer um tylenol. Às vezes, eu passo o dia todo sem falar uma única palavra. E nem me dou conta disso.

Eu não preciso mais abastecer meu guarda-roupa de tempos em tempos para ficar apresentável na firma (e para meus entrevistados); não preciso inventar combinações novas todo dia para não repetir roupa; não preciso ficar com o pé doendo dentro de um sapatinho lindo mas apertado; não preciso andar com bandaid na bolsa; não preciso passar maquiagem todo dia (o que irrita os meus cílios, cá entre nós), não preciso fazer escova na franja!

Na minha vida, todas as roupas são roupas de trabalho, até aquela camiseta que já deveria ter virado pano de chão, de tal modo que é possível desconfiar, às vezes, se a roupa escolhida para uma conversa de emprego é mesmo adequada. Os meus sapatos estão velhos, e eu não preciso trocar; as minhas calças estão gastas, e eu não tenho motivo para procurar outras. Eu engordei e ninguém percebeu. Eu esqueci como se faz uma maquiagem básica, porque agora eu só uso maquiagem à noite (quando tudo bem passar muito lápis).

E, ontem, um evento assustador: eu passei o dia fora, resolvendo pendências, encontrando amigos, indo de um curso ao outro. Coloquei o sapato arrumadinho mais confortável para aguentar o dia todo e fui, e peguei ônibus, e caminhei, e falei com as pessoas, e tudo isso que vocês fazem todo dia. Depois de pouco tempo, eu já estava exausta, com bolhas nos pés, meu baço doendo das caminhadas em ritmo apressadinho, a pele suja, a roupa ficando gasta ao longo do dia, o cabelo se estragando no vento. Eu desaprendi tudo.

Hoje de manhã, o @bomdiaporque, um dos meus companheiros nessa vida de mau humor virtual, mandou uma boa. “Ter que acordar pra ir pro trabalho é chato. Acordar e não ter emprego é pior ainda. Enfim, a vida não tem solução”. Eu também não achei um caminho ainda, mas, combinadores da desgraça alheia, saibam que a minha balança ainda pende pra minha situação atual. Com toda a solidão e ensimesmamento que ela comporta, mas também com as liberdades.


Era uma barata tão velha como salamandras e quimeras e grifos e leviatãs. Ela era antiga como uma lenda

17.03.2010

(final da trilogia da barata – partes 1 e 2)

A história da minha barata termina como a de todas as outras: em morte. No sábado de manhã, ela estava em decúbito dorsal, mas as antenas ainda se moviam. Um reforço de veneno e pronto. Foi um pouco complicado me livrar do corpinho, já que ele estava mole e a vassoura não dava conta de jogá-lo pra cima da pazinha – pelo menos não do jeito que eu estava fazendo, sem olhar. Mas deu certo e a história acabou.

Minha analista não tinha ficado sabendo ainda do acontecido porque, claro, a minha barata não se compara aos monstros que eu levo para o divã. Mas ela quis saber, e aproveitei para falar um pouco do livro, da Clarice, do neutro, do hoje que acontece agora, da terceira perna que apóia… E ela não tinha outra escolha senão me ouvir.

Porque, sim, eu reli o livro, na semana passada, nove anos depois da primeira vez. E agora eu entendi que ele é sobre uma mulher que come a barata, e era insuportável pensar em comer a barata. E também que ele não tem nada a ver com uma mulher que come a barata, e fala de um antes e depois que eu também vivi, todo mundo viveu?, mas sem a paixão. E, de todas, a minha metáfora preferida é a de ter vivido entre aspas.

“Mas não me deixem presa no quarto da barata porque uma coisa enorme vai me acontecer, eu não quero as outras espécies! só quero as pessoas”


Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha

15.03.2010

(continuação disto)

Numa quinta-feira que passou, a faxineira que deixa minha casa muito limpa e protegida de eventuais seres rastejantes estava distraída e não se lembrou de fechar o ralo da cozinha depois de ter feito toda a água com sabão desaparecer por lá. Na sexta-feira seguinte, eu estava no sofá assistindo televisão, me preocupando muito com os terríveis problemas femininos apresentados na sexta temporada do Sex and the City. Uma e meia da manhã: bateu o sono, desliguei a TV, fechei a casa, fui arrumar a cama.

Durante o lento e cinematográfico caimento da minha colcha branca de piquê sobre o piso revestido de madeira envelhecida (fake), um susto: saiu uma barata nojenta não sei de onde e entrou debaixo da minha cama, passando a poucos perigosos centímetros do meu pé descalço e sonolento. Que acordou: pulo pra cima da cama, olho pra direita, olho pra esquerda, olho pra cima, olho pra baixo. Caraaaaalho. Uma e meia da manhã.

“Eu sabia que baratas resistiam a mais de um mês sem alimento ou água. E que até de madeira faziam substância nutritiva aproveitável. E que, mesmo depois de pisadas, descomprimiam-se lentamente e continuavam a andar. Mesmo congeladas, ao degelarem, prosseguiam na marcha… Há trezentos e cinquenta milhões de anos elas se repetiam sem se transformarem. Quando o mundo era quase nu elas já o cobriam vagarosas”

Não vou dizer que fiz alguns telefonemas, porque vão me perguntar se eu realmente acreditava que alguém iria até a minha casa me salvar, e não vou saber responder. Também não vou contar das mensagens de texto que eu mandei, pelo mesmo motivo. Só vale a pena narrar que resguardei um lençol e um travesseiro no distante sofá-cama da sala e me muni de veneno e chinelo. Pronta e decidida a acabar com a bicha, só faltava descobrir como.

No conto A Quinta História, também da Clarice Lispector (no livro A Legião Estrangeira) e também sobre baratas e não sobre baratas, existe uma receita: misturar em partes iguais açúcar, farinha e gesso. “A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas”. Lindo e limpo, mas quem tinha tempo e humor para delicadezas? Numa extraordinária sinapse que conectou poesia, horror e Adorno, reproduzi a barbárie e montei no meu quarto uma câmara de gás.

“A hostilidade me tomara. É mais do que não gostar de baratas: eu não as quero. Além de que são a miniatura de um animal enorme. A hostilidade crescia”

Baygon ou sei-lá-qual-veneno por tudo: posicionei a trava da maneira que as instruções indicavam e segurei o chinelo na mão esquerda, para um ataque rápido no caso de uma tentativa de fuga. De pé na minha cama, me inclinei com cuidado e nojo de modo a direcionar o veneno para debaixo dela, atentando para não manchar a madeira do piso e da própria cama. Espirrei pelos três cantos disponíveis, menos pela cabeceira, que já fica encostada na parede. Deixei a janela fechada e, antes de fechar a porta, espirrei mais um monte no ar (depois lembrei que meus livros, computador e a bagunça toda ficariam cobertos de veneno em sua superfície). Por fim, lacrei o cômodo enfiando dezenas de panos no vão da porta.

Não vou dizer que fiquei mais tranquila. Meu sono desapareceu e as mensagens de celular prosseguiram por mais ou menos uma hora. Um amigo me telefonou, deu altas gargalhadas e tentou me incentivar a enfrentar o problema – “levanta e mata logo” –, sem sucesso. Pelo menos me lembrou de um detalhe importantíssimo: eu não tinha feito uma barreira de veneno na porta! Reparei logo o erro, tirando os panos com cuidado, porque não sabia se ela já tinha se alojado no meio deles para me surpreender e me atacar e…

(continua)


Não é mais uma ideia de barata

13.03.2010

A Paixão Segundo GH não é um livro sobre a mulher que comeu a barata. Mas, sim, é um livro sobre a mulher que comeu a barata. Não há quem não o identifique assim ou relacione baratas com Clarice Lispector, se for preciso relacioná-las com alguma coisa, e, no entanto, comer a massa branca da barata aparece lá no finalzinho, e só como uma consequência. Mas a barata existe e, por isso, minha história começa assim: quando eu li A Paixão Segundo GH pela primeira vez, eu não conhecia baratas.

“Eu na verdade – eu nunca tinha mesmo visto uma barata. Só tivera repugnância pela sua antiga e sempre presente existência – mas nunca a defrontara, nem mesmo em pensamento”

Foi há nove anos e, embora não se precise de muita experiência de vida para saber como baratas são, a minha se resumia à vivência em lugares muito limpos e protegidos de seres rastejantes. Havia tatu-bolas no jardim do prédio, e eu morria de nojo deles. Uma vez minha vizinha colocou um na minha mão, bolinha, e só depois, quando eu soltei e vi que ele tinha muitas patinhas e era segmentado, morri de nojo dele e de raiva da vizinha. Também havia algumas lagartixas na parede da garagem da casa do meu avô. Era uma parede chapiscada, que machucava quando a gente passava o braço perto sem querer, correndo nas motocas; era verde musgo, e ficava quase preta à noite, verde musgo ainda só em cima, perto das lâmpadas. Lá corriam as lagartixas, e eu observava de longe, sentada no sofá da sala que ficava na direção da porta, olhando atenta se elas permaneceriam do lado de fora. “Elas não entram, elas estão procurando os mosquitinhos para comer”. Eu fingia que acreditava.

As baratas entram e nunca ninguém tentou esconder isso de mim. Mas me disseram que elas não vêm pra cima das pessoas, e eu tive que fingir que acreditava, não só porque eram pessoas sensatas dizendo, mas também porque o diziam há pouco mais de algumas semanas, quando eu já não era mais a criança sentada no sofá do meu avô. Eu ainda tinha medo (eu ainda tenho medo). Não faz muito tempo, eu vi uma atacando uma moça ali na esquina da Consolação. Devia ser dessas com asas mais potentes, que venceria todas as suas vizinhas de calçada e bueiro na competição pela sobrevivência, não fosse o sapato do garçom que temia perder uma cliente. Foi por isso que, quando surgiu uma na minha casa, eu fiquei paralisada, longe e paralisada. Não tinha garçom e nem ir embora eu podia: ela estava debaixo da minha cama.

“Pela lentidão e grossura, era uma barata muito velha. No meu arcaico terror por baratas eu aprendera a adivinhar, mesmo à distância, suas idades e perigos; mesmo sem nunca ter realmente encarado uma barata eu conhecia os seus processos de existência”

Quando a GH me obrigou a pensar em uma barata, eu não sabia pensar em uma barata. Achei bonito o que ela dizia, eu lembro: a criatura presa pela cintura (barata era bicho fêmea), o encontro com o neutro, a indiferença que é a vida… Não foi difícil aos dezessete anos, não sei como; tinha sido uma experiência. Mas ninguém na época podia dividir a descoberta comigo – mal tinham lido o livro obrigatório no vestibular, e quem leu achou esquisitíssimo. Então, quando eu conheci pessoas que sabiam de fato quem era Clarice Lispector, e quando eu mencionava o que já tinha lido, o comentário invariavelmente era: “ah, aquele em que a mulher come a barata?”. No começo eu dizia que sim, era esse, mas o livro não era sobre comer a barata, era sobre… Depois eu devo ter desistido da resposta, a tal ponto que ele virou para mim aquele em que a mulher come a barata. Era isso, mas com uma indiferença de que eu não seria capaz se achasse mesmo que era sobre comer baratas.

(continua)