Paixão e desafio intelectual

30.05.2010

Na sexta-feira, meu amigo Ricardo Calil disse que conseguia entender mais quem torcia pelo Corinthians do que quem era indiferente ao futebol e nem time tinha. Doeu fundo no peito desta que vos escreve, indiferente ao futebol, sem time. Como inventar uma paixão por vontade própria, só para ser mais compreendida, eu não consigo, resolvi me aproximar do futebol da melhor maneira que encontrei: lendo sobre ele. Será que vou chegar perto pelo menos dos corintianos?

“Veneno remédio – O futebol e o Brasil”, do Zé Miguel Wisnik, foi lançado no ano passado, ou no outro, e era o único livro dele que eu tinha certeza que jamais leria. Pois estou lendo e adorando, acreditam? Logo, logo eu tenho assunto para os almoços futebolísticos, para os intervalos de jogo, para as cervejas no bar durante a Copa. Enquanto isso, e enquanto eu não escrevo um texto de verdade sobre o livro, fiquem com esse trechinho que acabei de ler.

“Não se pretende negar aqui o lugar perfeitamente legítimo dos indiferentes ao futebol. Mas, para quem o imaginário da história é o avanço da consciência plena rumo a um horizonte salvífico, o jogo parece regredir sempre, num ciclo irritante, ao ponto de partida. Para aqueles outros que, imbuídos de uma teoria crítica geral, que não veem sinais de vida na catástrofe do mundo, o jogo é destituído de graça, além de participar em bloco do processo de dominação. Para quem a vida se alimenta, no entanto, na sua multiplicidade aberta, de uma margem irrecusável de desejo e acaso – em uma palavra, de jogo -, o futebol pode ser objeto simultâneo de paixão e desafio intelectual. Essa disposição não é muito diferente daquela que é pedida pela arte – que supõe certa dose de aceitação da violência simbólica e da gratuidade.”

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Sobremesa da Cinderela

30.05.2010

Deu certo.


Cozinha sem utopia

29.05.2010

20h15 – Gênio da física

Minha moranga grande é linda. Minha panela de 30 litros é linda.

Vou colocar a moranga dentro pra medir a água, lalá, isso, tá bom. Ah, depois eu vou tirar o recheio… Não importa, é o volume que determina o empuxo! Meudeus, preciso lembrar de comentar do empuxo. Gênio. Minha sobremesa vai dar certo porque eu sei do empuxo.

20h20 – Quase redondo

“Cuidado pra não se cortar”. C’mon, mãe, eu tenho quase trinta anos, qual a dificuldade de cortar uma abóbora? Hm, é meio difícil. Faquinha, cuidado com o dedo. Ai, que duro. Putz, agora entrou tudo, devo ter passado da casca. Caraca. Que duro. Vai, uma tampinha… Genial. Meudeus, eu sou genial. Está quase redondo!

20h35 – Cirurgiã

To me sentindo uma cirurgiã: juro que enfiar a mão na abóbora pra tirar a semente e a esponjinha deve ser igual à sensação de por a mão dentro de um útero. Eu preciso parar de ver tanto seriado médico. Ainda bem que fiz um buraco relativamente grande. Não dá pra ver nada, meudeus, QUANTA SEMENTE.

Ah, vejam só, as sementes, aquelas que meu pai come. Desvendando o reino vegetal, eu sou uma aventureira. E minha sobremesa vai ficar incrível. Desde que eu não esqueça nenhuma semente aí dentro, claro. Cuidar das abóboras do Farmville dava bem menos trabalho.

20h50 – Adoça tudo

Açúcar, muito açúcar, delícia, vai, o saco inteiro, chuf, chuf, não para de cair, vai, açúcar, adoça tudo, que lindo, que calda deliciosa que vai ficar, vai, vai…

20h55 – Água seca

Ready? Go! Fogo baixo pra não queimar a menina e para a água que vai começar a ferver e pular não entrar no buraquinho do açúcar – devidamente protegido com a linda e redonda tampinha que eu fiz sozinha e com muito amor. Pronto, agora é só esperar.

(22h) Aimeudeus, é mesmo, a água seca! Água fervendo no fogo, a água evapora, Mariana, onde você aprendeu Física, minha filha? Onde você aprendeu a andar, minha filha? A água seca, será que secou? Corre pra casa, corre pra casa, e se explodiu tudo, e se a cozinha ficou laranja, e se matou o cachorro???

(22h05) Nem fervendo tá. Acho que o fogo tá baixo demais. Uma hora de fogo e não aconteceu nada. Que horas eu vou dormir hoje? Até meia noite e pouco isso tá pronto, não tá?

Meia noite e pouco

Apelei, pus foto no Facebook. Não aguento mais. Já vi Grey’s Anatomy, já tomei banho, já brinquei com o cachorro. Vou aumentar o fogo. Não vai queimar, claro que não vai. E se eu dormir um pouquinho e depois levantar pra continuar? Não, não vai dar certo. Ai ai. Será que eu errei alguma coisa? A parede desse útero tá muito dura, isso não é doce de comer, vai ficar cru e todo mundo vai ter que falar que tá uma delícia, ninguém vai conseguir comer até o fim. E vão dizer “é que eu comi demais, nossa, tava tudo tão bom”, eu sei que é isso que vão dizer.

1h20 – Colapso

Já deu? Não deu ainda. Não posso mais ficar tirando a tampinha, já tá laceando, daqui a pouco a tampinha cai dentro da calda de açúcar. Deixa ver se tá doce isso aqui. Nossasenhora, que delícia, calda de açúcar com gostinho de abóbora. Então tá tudo certo, não tá? Ih, a água de fora tá meio laranja. AH NÃO. Será que tem um furo no fundo e a calda tá escapando e a água tá entrando na minha moranga??? Não pode, não pode, não vai ter calda, a calda tem que ser concentrada, não pode escapar. Não, não pode. Puta merda, e agora? Eu to vendo a calda se mexer, deu errado, vou ter que começar do zero, se a calda mexe é porque tá entrando água por baixo, só pode ser, deu errado, que horas são? E se eu comprar outra moranga amanhã cedo e fazer tudo de novo? Aí dá tempo, eu ponho no freezer, vai dar. Não, não pode ser. Já sei. Vou tirar a moranga da água. Eu sei, mãe, não é pra tirar quando ainda estiver quente, você avisou, pode colapsar, mas o que pode ser tão grave agora? Se colapsar já era, talvez já esteja tudo errado, mesmo, a água que entrou na calda. Eu vou arriscar.

1h30 – Prasco

Desliga o fogo. A concha, cadê a concha? Aqui, isso, vai tirando a calda com cuidado, vou por nesse negocinho de plástico e depois arrumo outro recipiente menos tosco. Tira, tira, nossa. Quanta calda. Um saco de açúcar dá tudo isso de calda ou isso é a maldita água que entrou na minha moranga? Ih, acabou o espaço, pega outro recipiente, mais calda, mais calda. Isso não pode estar certo. Vai em frente, Mariana. Pronto, lindo, deixa esfriar antes de colocar na geladeira. Agora a abóbora, tira com cuidado, como eu vou tirar isso daqui com essa água quente? Vou pegar pelas paredes. Vou mesmo. Tá tão duro aqui em cima, porque não ficou submerso como o resto da abóbora, vou pegar. Onde eu vou por? Putz, não comprei o suporte, vai no suplá de prasco, amanhã eu troco. Um, dois: foi.

2h15 – Dúvida

Já esfriou? Já esfriou, não vou esperar mais. Putz, que pesada. Putz, tá mole embaixo. Ainda bem que eu tirei do fogo. Não vai dar pra tirar desse suporte, senão desaba. Será que o creme de leite vai coalhar se eu colocar com a abóbora quente? Não, isso não existe, onde eu to com a cabeça. Vai, não aguento mais. Creme de leite.

2h25 – Chega

Não eram três latas? Cacete, eram três, não é possível. Será que eu tenho mais creme de leite. Eu tenho, ainda bem, vou por cinco, então. Que tipo de pessoa faz uma sobremesa complexa pela primeira vez e não vai poder provar antes de levar pra um jantar? Me diz, que tipo de pessoa faz isso? Que ideia foi essa, Mariana? Agora põe cinco latas, não é possível que essa moranga seja tão grande assim. Cacete, que moranga sem fundo, cinco latas de creme de leite? Como eu vou carregar isso, esse negócio vai pesar quanto? Cinco latas, mais toda a abóbora, mais um pote com a calda, que taxi vai querer me levar? Eu vou derrubar tudo, eu sei que vou. Chega. Vai pra geladeira.

2h30 – Enjoo

Cara, que enjoo é esse? Acho que não vou conseguir comer essa sobremesa. Ai, sobremesa. Não vou pensar nisso.

Sábado, 10h – Espera

Está inteira? Está. Não vazou. Em dez horas vão me dizer que gosto tem. Cansei, não faço nunca mais essa coisa. E estou doando uma panela de trinta litros, caso alguém se interesse.


Argumento para filme de terror

26.05.2010

Número de telefone é suspenso depois da morte de 3 donos

Empresa telefônica da Bulgária descontinuou sequência 0888 888 888.

‘Número da morte’ ficou marcado no país por uma década.

Aqui.


Ah, o Chico

26.05.2010

Vocês viram? A Cia das Letras chamou alguns escritores para fazer contos baseados em músicas do Chico Buarque. Minha música preferida não tá na lista, pena (já sei, eu devia escrever um conto baseado nela!). Agora a gente tem que saber se vão começar a comparar: ah, a letra da música é muito melhor…


Discurso

24.05.2010

Só eu achei sintomática a mudança de nome do caderno do jornal de “economia” para “mercado”?


Ensaio de maternidade

23.05.2010