Morar na rua em Ipanema

Está nas bancas, com chamada principal na capa, e no site, para assinantes: matéria da Paulinha sobre os moradores de rua de Ipanema, na piauí de maio. Quem quer mais também pode ouvir o podcast.

Strongly recommended.

Um trecho:

“Eram quase duas da tarde quando Gustavo Villas-Boas contou as moedas no bolso e resolveu comer alguma coisa antes de voltar para a porta do banco. A lanchonete mais próxima era o KFC, mas ele torceu o nariz: detesta frango. Andou mais uma quadra e chegou ao McDonald’s.

Ao entrar na fila, percebeu que os demais clientes o encaravam com insistência. Fez de conta que não era com ele. Ao chegar sua vez, pediu a ‘promoção número 1 para viagem’, pela qual pagou 13 reais. ‘Vou levar isso para minha mulher, para ver se ela melhora de cara’, disse-me Villas-Boas. ‘Ela falou que eu estava fedendo, mas ontem mesmo tomei banho.’

Villas-Boas é muito magro, tem a pele tomada por escaras, vários hematomas ao longo das pernas e, de fato, seu mau cheiro era percebido de longe. Ele disse ter 16 anos, mas levando em consideração datas e situações que menciona, é provável que tenha mais. Falou que foi expulso de casa pelo padrasto aos 5 anos e desde então passou a morar na rua.

Desde os 12 anos, vive com a mulher, Patrícia, com quem tem um filho de 3 anos. Ela está grávida novamente. Villas-Boas a conheceu depois que ‘um gringo muito bacana’ lhe deu de presente 350 reais. ‘Eu ficava olhando para ela na praia e, quando peguei o dinheiro, fomos ao McDonald’s. Gastamos tudo. Aí ela viu que eu era legal e foi morar comigo’.

Quando o entrevistei, eles haviam brigado e Patrícia pedia esmola na Praça General Osório, a poucas quadras dali. O ponto do casal é a porta do banco Itaú, na rua Visconde de Pirajá. É onde Villas-Boas pode ser encontrado de segunda a segunda, com a palma da mão direita voltada para cima, pronunciando as mesmas frases: ‘Senhora, me dá uma ajuda?’, ‘Moço, me paga um lanche?’ e ‘Tem um trocado?’.

A escolha do banco não é estratégica. ‘É só um ponto, não fico achando que vão me dar o dinheiro que eles pegaram lá.’, disse. Para ele, os dias, meses e anos na rua são quase indistinguíveis. ‘Eu sei que o tempo está passando quando o banco coloca enfeites de Natal na calçada’, disse. ‘Aí, já é dezembro. Quando é Páscoa, tem coelho por todo o lado’, explicou.”

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