Bicho do mato

Risquinhos na parede, eu nunca tinha pensado nisso. Provavelmente porque desde o fim da adolescência, quando eu já podia ir e vir, minha casa tinha deixado de ser prisão e virado refúgio. Eu também não tinha contagem regressiva a fazer: os dias não me levavam para perto de nada e não raro eu confundia a terça com a quarta-feira. Risquinhos na parede, cruza quando soma cinco.

Já se passaram dez dias de trabalho novo, dois grupinhos de cinco. Nove, na verdade, porque um deles foi feriado. Não é uma prisão, e eu também não estou contando os dias. Estava, na verdade, só para fazer esse post que foi atrasando até chegar nesse número, dez. Nove e um feriado.

O feriado merece destaque: foi o primeiro dia em que eu não tinha nada para fazer, depois de mais ou menos um ano de finais de semana consumidos senão por trabalho, pela preocupação com os trabalhos pendentes. Na quarta-feira de Tiradentes eu acordei às onze da manhã, passei uma hora brincando de manicure e o resto do dia vendo seriados. Não era morte simbólica dessa vez, era descanso do símbolo, com um dos grandes símbolos do ócio, a TV.

Não é irônico, é só uma lógica engraçada: para poder descansar, é preciso ter um emprego.

E eu gosto do meu emprego. Gosto de estar de volta a um ambiente profissional coletivo, o melhor de tudo, eu acho, são os detalhes sociológicos de primeiro dia de escolinha. Os hábitos que eu desaprendi e observo agora, como uma outsider prestes a se reintegrar. Mistura de curiosidade infantil e afastamento de cientista. Por exemplo: passei pelo exame médico admissional, coisa que todo mundo esquece que existe, mas, uma vez lá, lembra de todo o procedimento. Entrega papelada, fica horas sentada esperando, responde questionário imbecil, mal vê a cara do médico. Dessa vez eu nem subi na balança, foi um recorde.

Eu esqueci que precisava carregar escova de dentes na bolsa, porque meu banheiro ficava a quatro passos do meu computador. Agora também fica, na verdade (minha mesa é na esquina, do lado do banheiro), mas minhas coisas não ficam na primeira gaveta, a pia é molhada, existem cabines pra fazer xixi, encontro mulheres diferentes lá a cada dia.

Também esqueci que sinto fome no meio da tarde. Devia sentir todo dia e pegar alguma coisa na gaveta das delícias daqui de casa sem me dar conta, mas agora eu tenho que levar lanchinhos (porque a firma nova não é igual à firma velha, que tem uma praça de alimentação). Na primeira semana eu quis ser saudável e levar uma fruta; olhei em volta e só tinha mexerica como restos da última compra. Mexerica não pode, todo mundo sabe o viral que é o cheiro de mexerica, e eu não queria ser a mexerica girl na primeira semana. Levei um chocolate qualquer e no mesmo dia vi uma colega de trabalho feliz abrindo uma mexerica e oferecendo pra todo mundo.

Sim, o resumo é que eu voltei a ser um bicho do mato. Ah, um ano de isolamento e é isso que acontece. Adivinhem se as bochechas não ficam vermelhas de novo por qualquer coisa? É. O cafezinho, também – depois de um ano de quase total abstinência, devo voltar a frequentar as garrafas térmicas. Minha segunda visita à salinha do relaxamento que foi interessante, voltei de lá mezzo frustrada, mezzo interessada na minha completa inexperiência. Quem poderia supor, além de mim, que haveria chazinho de erva cidreira me esperando às 18h30? Os pires de apoio das garrafas completamente pingados já denunciavam o fim do expediente, e nem isso eu notei. Tchuchei a garrafa, tudo vazio. Olhei para o relógio, 18h30.

Existe agora um fim de expediente. No primeiro dia, depois de superar a exaustão que bateu às 17h30 (CLT não é para os fracos), caminhei feliz até o ponto de ônibus, às 20h, e liguei para a minha mãe. “Mãe, eu estou indo embora!” Me perguntaram como tinha sido o primeiro dia; foi bom, tinha bastante trabalho… Mas o importante era que eu estava indo embora e não ia mais trabalhar. Entenderam? Tinha hora pra terminar de trabalhar.

Mais uma vez: a vida não tem solução. Logo começo a resmungar e dizer que era muito mais feliz trabalhando em casa. Peço ao senhor em que não creio todos os dias: me afaste desse mal que é a falta de memória. Tem o blog pra me lembrar um pouco, tem os amigos, não posso esquecer. E tem a minha casa, que eu voltei a adorar. No segundo dia de trabalho cheguei animada para dar uma ajeitada nas coisas, roupas fora de lugar, flores que tinham morrido, jornal empilhado. Até cozinhei, e só para mim. Minha casa deixou de ser uma prisão e é onde eu descanso. Sem o tédio da tirinha acima (que eu roubei do Armando, que tinha roubado do Ricardo). Agora os risquinhos contam os dias para o final de semana, e só. Como os risquinhos de todo mundo que trabalha.

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4 Responses to Bicho do mato

  1. guilherme disse:

    Que trabalha e que não tem plantão! Parabéns!

  2. evandro disse:

    Putz, espera só até você receber o seu pagamento. Você vai agrupar os penta-risquinhos em grupos de trinta, circulando-os.

  3. emmer disse:

    muito bom o parágrafo da mexerica!

    “finais de semana consumidos senão por trabalho, pela preocupação com os trabalhos pendentes

    eu detesto isso. é difícil escapar.

  4. Larissa disse:

    também rezo pra evitar a falta de memória… será possível?

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