Propriedade particular

A história que eu quis escrever um dia começava com uma moça colocando livros novos em uma estante. O narrador deixaria que o leitor soubesse que essa estante iria abrigar, dali em diante, livros dela e o novo marido dela; ele ficaria sabendo disso por meio de uma ceninha interna de ciúme, porque ela abriria um dos livros e daria de cara com uma dedicatória enigmática.

Eu não lembro de ter em algum livro meu uma dedicatória assim, pelo menos as poucas que eu tenho me parecem bem claras. E não sei se o namorado tem dedicatórias nos livros dele, pelo menos nos que eu já abri não tem. Mas eu tenho livros customizados: o do Barthes, mesmo, que eu citei ontem, tem algumas partes grifadas e outras são acompanhadas por carinhas :) que eu faço quando gosto do trecho. Acho simpático e me surpreendo às vezes quando revejo, fico pensando por que mesmo eu marquei aquelas linhas.

Tem um post no sempre bom Books Blog do Guardian sobre isso, hoje. O David Barnett conta que comprou livros numa banquinha e quando foi ver, havia cartas no meio deles. CARTAS. Ele tenta reconstruir a história mas é claro que isso é impossível. Eu já vivi uma experiência mais ou menos parecida. Duas, talvez.

Primeiro foi quando eu estava fazendo uma reportagem sobre Guimarães Rosa e seu passado como vice-cônsul na Alemanha e, além de devassar seu diário, fiquei remexendo em caixas do IEB, na USP, com documentos pessoais da esposa dele: fotos, agendas, papelada. Parece divertido, eu sei, mas comecei a me constranger quando me peguei descobrindo que dia e hora ela tinha marcado cabeleireiro.

Poucos meses depois, eu e a Paulinha descobrimos um jogo de cartões postais lindo num sebo no Rio – como era o mesmo o nome daquele lugar? Aquele que fica no cinema… Enfim, os postais estavam lá, e começamos a separar um monte deles, lindos e com escritinhos atrás. Levamos um susto: tinham todos a mesma destinatária, a sra. Branca esqueci-o-sobrenome, e tinham diferentes endereços, diferentes remetentes. Foi necessário fazer uma busca no Google, claro, e depois de analisar uma árvore genealógica, chegamos na possível família dela.

Eu gosto de pensar que deixei essas histórias para trás, que não penso mais na intimidade Guimarães Rosa, que não me arrependo de não ter comprado todos os postais da dona Branca. Mas é mentira: eu tenho um problema com memória e ainda vou escrever sobre isso. E não vai ser um post, vai ser mesmo uma história.

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5 Responses to Propriedade particular

  1. Laila disse:

    O sebo não é dentro da Casa de Cultura Laura Alvim (eu lembro de uma livraria, não de um sebo). bjs!

  2. Laila disse:

    Virgi, esqueci de postar um ponto de interrogação. É?

  3. mariana disse:

    Não… É num cinema em Botafogo. Botafogo? Acho que sim.

  4. ManueloTraveler disse:

    Luzes da Cidade, fica no Espaço de Cinema…

  5. ManueloTraveler disse:

    Luzes da Cidade, dentro do Espaço de Cinema, na Voluntários da Pátria, Botafogo, RJ.

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