Gimme a break

Cena 1:

Wilson está tentando fechar uma mochila verde, mas se atrapalha um pouco com o zíper. House aparece em segundo plano, na soleira da porta, e fica observando enquanto o amigo tenta vestir a mochila e se atrapalha com as alças.

– Então você vai acampar.

Wilson dá um pulo de susto, mas não se vira para ver House.  Ao invés disso, dá um longo suspiro e tenta imprimir à sua voz um tom de naturalidade.

– É, eu vou. Dois ou três dias por aí, vendo as árvores, as estrelas e, principalmente, cozinhando só para mim.

House, irônico:

– Ah, então você vai sozinho? Achei que ia levar uma das suas ex.

– Elas não gostam de acampar, House.

– Hm, parece que você insiste no mesmo erro: sempre enfia dentro da sua casa pessoas que não têm nada a ver com você.

– Só para te lembrar, não fui eu que te enfiei na minha casa. Você fez isso sozinho.

Wilson sai andando, nervoso. House fica parado e grita antes que a porta bata:

– Me liga quando chegar lá, querido!

Cena 2:

Câmera passa por diversas peças de roupas femininas bagunçadas em cima de uma cama. Corre até o chão, onde também estão espalhadas algumas peças. Para na frente de um armário: Carrie B. está de calcinha e camiseta transparente com plumas no decote. Não se pode ver seu rosto, que está voltado para o armário. Os braços movem os cabides com pressa e violência para o lado esquerdo. Ela para por um momento, respira fundo, leva às mãos à cabeça.

Música “New York, New York”, instrumental, com uma pegada de jazz.

Voz de Carrie em off: Nova York é a cidade que nunca dorme. Todo mundo que mora em Nova York sabe disso, todo mundo que queria morar em Nova York sabe disso, todo mundo que já esteve num elevador ou em um happy hour patético ouvindo música velha sabe disso. Estar em Nova York, portanto, significa acordar do sonho em que tudo acontece e fazer escolhas: em qual restaurante comer, qual caminho escolher para pegar a menor fila de taxis, trocar o sapato cor de rosa pelo fúcsia, esperar ou não que ele ligue. É impossível não ter um surto de vez em quando (nesse momento, Carrie para de mexer nos cabides, respira fundo etc). A solução é… dar um tempo.

Música “New York, New York”, com mixagem eletrônica

Corta para Carrie arrastando duas malas enormes, tentando descer a escada de sua casa. Miranda está parada na porta com uma mochila pequena nas costas. Ela olha assustada para a bagagem de Carrie.

– Você não fez isso.

– O quê? (Carrie para preocupada e começa a olhar para sua roupa e seus sapatos)

– São TRÊS dias na pousada afastada e isolada no meio do nada! Você não vai ter tempo de usar tudo isso nem se passar os dias trancada no quarto trocando de roupa e se olhando no espelho!

– A gente nunca sabe quem pode encontra-ar…

– Big não gosta de pousadas afastadas e isoladas.

Carrie desmancha o sorriso zombeteiro do rosto, solta as alças das malas.

– Sabe, Miranda, eu estou tentando, eu estou MESMO tentando, e você vem e estraga tudo.

Silêncio.As duas olham para baixo.

– Desculpa.

– Não, me desculpa. Eu…

Taxi buzina.

– E então, madames?

– Hora de ir, Carrie.

São de mentira, vocês sabem: isso aí de cima sou eu me permitindo uma licença poética para inventar duas cenas com o mesmo tema e personagens mais ou menos parecidos, mas diferentes. Vocês entenderam: House e Wilson (House), Carrie e Miranda (Sex and the City), num episódio fictício que teria como tema “dar um tempo”.

(Não acionem os pagers nem telefonem com urgência para a secretária eletrônica da amiga mais próxima: esse blog não é exatamente confessional)

Então, como eu dizia, dar um tempo: aparentemente, depois da sexta temporada, não virá mais nada do quarteto mulherzinha de NY (tirando os filmes, que são bem ruins). House, por sua vez, também está na sexta temporada, e por algum motivo que ainda me é desconhecido, os produtores, atores ou sei lá quem resolveram não fazer episódios regularmente. O que me deixou num dilema: como eu vou sobreviver sem Vicodin?

Duas grandes amigas trouxeram a solução: um mix de House e Sex and the City que atende pelo nome de Grey’s Anatomy.  E já que eu não tenho preconceitos com séries nem com conselhos de amigas, resolvi tentar. E deu-se o estrago.

Eu não vou dar os números, mas posso dizer que comecei há muito pouco tempo e já estou razoavelmente avançada na série – que, adivinhem, está em sua sexta temporada (666?). E quanto mais eu assisto, mais eu quero assistir, e eu acho que isso nunca mais vai acabar. O pior de tudo é que ela combina alguns elementos das únicas séries que eu já assisti na vida (sim, eu sei, Friends é um lapso no meu background cultural, assim como Seinfeld e outras que todo mundo ama e cujo nome eu nem sei).

Tem a narração em off de uma mulherzinha que guia o episódio, fazendo reflexões às vezes piegas, às vezes piegas mas verdadeiras, sobre o tema da vez. Tem médicos e corpos e cirurgias, o que sempre dá uma movimentada na história. Tem o relacionamento central que vai e volta toda hora e não se resolve. Tem o ambiente de trabalho estressante com pessoas que se relacionam das mais diversas maneiras. Tem problemas de mulherzinha. Tem problemas profissionais. Tem a atriz principal que nem é bonita de verdade, mas a gente aceita que, de alguns ângulos, ela pode ser bonita. Tem o galã mais velho que nem é bonitão de verdade, mas a gente aceita que, com uma certa cor de camisa, ele fica bem interessante. Tem tudo!

Tem mais que isso, na verdade: a mulherzinha não é tão superficial, os médicos não são tão super-heróis, os relacionamentos são bem coerentes, os diálogos são bem construídos… E, isto posto, quero deixar bem claro: eu não sinto nada pelo McDreamy nem pelo McSteamy (já superei, meninas); eu não fiquei triste quando aquele paciente que era mais que um paciente morre (no spoilers); estou um pouco de saco cheio do relacionamento central que não se resolve; não tenho muita paciência com o George nem com o Alex; não acho a Addison bonita. Quer dizer, eu não tenho mais grandes emoções assistindo. Eu só preciso assistir.

Porque, assim como os personagens, eu resolvi dar um tempo. Bem, não foi uma decisão consciente, mas eu acabei decidindo. E assistir essa série é tão alienante, tão fácil e o tempo passa tão rápido, que… Eu estou dentro dela. Usando expressões em inglês (nem sei se tem alguma perdida aqui no texto – aqueles estrangeirismos que ninguém percebe que está usando), pensando nos arcos dramáticos, imaginando o que pode acontecer com eles… E sem sentir nada.

Ah, mais duas coisas. Tem os amigos: são simplesmente os mesmos tipos de amigos, fazendo os mesmos papéis, a mesma função. E eu adoro. House-Wilson, Carrie-Miranda, Meredith-Cristina. Quem não queria ser um par desses?? (Morram de inveja, eu tenho a minha House/Miranda/Cristina). E, por fim: os exemplos de vida. Tá, tá, personagens de seriados não são lá muito profundos e complexos nem passam por situações tão desafiadoras assim. Mas o foco é: se você gosta de uma série e leva as histórias a sério, cada uma das liçõezinhas óbvias vira um exemplo para você usar em situações variadas, como explicar algum problema do seu casamento, da sua relação com uma amiga, do seu medo no emprego novo, da confusão com a sua família. Tudo. Desde que você seja suficientemente superior e livre para saber que personagens de seriados não estão entre as possibilidades de argumento de autoridade e, ainda assim, usá-los para ilustrar algum acontecimento.

Bem, isso pode ter ficado um pouco confessional. Mas eu só queria dizer que (1) Grey’s Anatomy é uma boa mistura de House e Sex and the City, e (2) eu não estou postando aqui porque eu uso todo o tempo possível para acompanhar a história deles. Eu estou dando um tempo. Vocês deviam tentar.

(“You should try it”, eu sei que vocês notaram. E esse final com moral e frase de efeito??? Eu tentei um começo sem a minha voz em off… Espero que as séries não destruam meu olho clínico para textos horríveis com moral da história e frases piegas. Seriously? I don’t wanna be that person.)

(editando: o diálogo fictício do Grey’s Anatomy vem quando eu tiver dominado melhor cada personagem. Vai começar com uma fala em off da Meredith, então vai para um diálogo rápido – ou no banheiro ou no vestiário do hospital -, vai envolver café e vai terminar com a Nazi gritando)

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4 Responses to Gimme a break

  1. gabriela disse:

    menina, a voz em off é a meredith! exceto em alguns raros casos, em que outros personagens narram.

    nao to aguentando voce toda adolescente falando de greys anatomy! hahaha, e eu queria dizer que fanfic é a coisa mais nerd que já existiu, mais que montar os próprios computadores, mais que ser conhecido pelo seu nome em WoW, mais qe tentacle porn (e olha que nerd é minha especialidade)! jamais aceitarei novamente o título.

    agora falando sobre o texto, eu achei curiosa a comparação. eu jamais penso em sex and the city quando penso em grey’s, porque pra mim sex and the city tem a ver com a meteópole, com cosmos e manolos. eu dou outro foco, adoro quando a gente vê as coisas com olhos tão diferentes. eu pensaria em house + novela mexicana quando falo da série.

    i dare you to publish this comment! hahaha

  2. mariana disse:

    eu sei que a voz em off é da meredith! assim como é da carrie, no sex and the city! duas mulherzinhas que guiam o episódio.

    eu sei, fanfic é muito nerd e muito adolescente. eu já fiz isso quando eu era adolescente, mas não vou entrar em detalhes – porque esse é o meu blog e eu não posso contar coisas assim aqui.

    vc não acha mesmo que grey’s tem sex and the city?? pensa na camada mulherzinha da série, tem tudo a ver com a camada relacionamentos do satc… com muito menos glamour, claro.

  3. fabi nogueira disse:

    haahahaahah ‘seriously’ que você fez um texto tão grande sobre isso? GOS-TEI! mas acho que até você terminar de ver todos os episódios e começar a escrever o ‘seu’ diálogo de grey’s, talvez algumas coisas mudem. por exemplo: no lugar de café, sexo. no lugar dos gritos da bailey, talvez um tantinho mais de sensibilidade… a nazi não é tão nazi quanto parece (no spoilers!). ahahaahah mas vai saber, né? o diálogo é seu mesmo… ;o) bjs.

  4. gabriela disse:

    não vejo mesmo o paralelo… porque acho que sex and the city tem um tom feminista assumido, e grey’s fica no âmbito “relacionamentos”, até porque cobre de alguma forma o lado masculino tb, que em sex and the city é apagado, não existe. tudo o que é opinião masculina na série é mostrado como filtrado pela carrie, tem um propósito, os homens não falam livremente na série, ela dá o foco. já em grey’s, são relações, e soam como mais “naturais” pra mim. os temas não limitam pelo gênero, eles são definidos por assuntos que cobrem todos os personagens e as relações que eles têm.

    sobre fanfics, duas palavras pra você: harry. potter. hahaha

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