A vida não tem solução

Mesmo você, que talvez nunca tenha visto um freelancer de perto, já ouviu falar de algumas peculiaridades que caracterizam a vida de quem trabalha em casa e conhece os conselhos que enchem o nosso mundo de boa vontade. Tenha um horário fixo, para não avançar madrugada adentro no trabalho. Tire o pijama e vista uma roupa que possa ser vista em sociedade, para afastar a preguiça. Saia de casa às vezes, para evitar a depressão. Junte uma grana, para atravessar os meses de trabalhos escassos. And so on.

Eu trabalho no meu doce lar, por opção, há quase um ano. Nada disso que todo mundo fala faz muito sentido para mim. Eu tenho horário fixo para acordar, mas não posso decidir meu horário de terminar nem se eu vou ter final de semana. Eu tenho preguiça às vezes mesmo de roupa, e isso não significa que eu não vou trabalhar. Eu não posso sair de casa porque eu tenho muito trabalho para fazer, então a depressão que se contente em aparecer só nos meus sonhos. Juntar grana? Essa é a melhor parte da piada. Deve ser um combinado de todo mundo que quer ser freelancer mas não tem coragem: vamos dar conselhos de saúde financeira pra ele, mesmo sabendo que é impossível. Assim ele vai se achar um bosta por não conseguir juntar dinheiro, ainda que se mate de trabalhar, e vai voltar a ter um emprego e não vai ser mais feliz que a gente.

Bem, crianças, a vida é mesmo difícil. Outro dia eu perguntei para uma amiga, por que mesmo eu pedi demissão? Ela sabia que era uma piada e não se deu ao trabalho de responder. Eu sei muito bem por que pedi pra sair todas as vezes em que isso aconteceu, no hard feelings, e a minha questão eram todos os contras que ninguém nunca tinha me contado que eu iria enfrentar.

Eu não tenho mais aquele terrível problema de ter que almoçar com pessoas da firma de quem eu nem gosto tanto, mas com quem sou obrigada a conviver. As brigas que nunca se configuram brigas, apenas indecisão sobre onde vamos hoje?; aquele que fala demais e só de si; aquele que faz piadas malas; aquele que não tem assunto nenhum que interesse; aquele que é vegetariano e reclama se não tem soja; aquele que come muito devagar e atrasa todo mundo porque ainda por cima não para de falar; aquele que é contra o cafezinho.

Na minha vida, eu normalmente almoço sozinha – em casa, olhando para a parede ou para a sacada, em silêncio, um lugar só à mesa, ou em algum restaurante de quilo que não fique muito longe e seja barato. Claro que dá pra almoçar com quem ainda tem seus horários fixos, mas colegas de firma costumam comer com colegas de firma, e isso é um fato, nem venham discutir comigo.

Eu não conheço mais o que é trânsito. Estar no ponto na hora certa para não ter de esperar por vinte minutos o ônibus ideal; começar a suar poucos minutos de ter saído do banho por causa da lotação; as buzinas impacientes dos carros que não entendem que, às vezes, os semáforos ficam vermelhos; duas ou mais horas por dia desperdiçadas em traslados que parecem uma peregrinação para o abate; sair correndo de sapatinho e desmanchar todo o cabelo porque o ônibus de que você precisa já está fechando as portas e vai dar partida.

Na minha vida, eu não sei mais quem são os cobradores nem quanto tempo eu levo de um lugar ao outro, e eu não sei mais quem são as pessoas que fazem todo o dia os mesmos caminhos, e eu não tenho mais moedinhas trocadas na carteira, e eu não ouço mais mp3 player/Ipod, e eu não sei mais o que é dormir embalado pelo balanço do ônibus depois de um dia cansativo, nem o que é ter uma dorzinha de cabeça por ler em movimento, nem encontrar de surpresa algum conhecido.

Eu não tenho mais um chefe atrás de mim o dia todo, tampouco preciso conviver com pessoas muito diferentes de mim. A mocinha que faz fofoca; a outra que desfila se imaginando linda; o menino que nunca faz as coisas que lhe foram pedidas; a criatura que ouve música em volume altíssimo e acaba compartilhando seu geralmente péssimo gosto musical com todo mundo; a colega carente que pede ajuda nos piores momentos possíveis; o chefe de outra área que imagina que manda em todo mundo que não é chefe, mesmo que não seja seu subordinado.

Na minha vida, as relações interpessoais só existem virtualmente. Quando eu quero muito fazer uma piada, eu preciso achar alguém online no Gtalk. Se eu quero mostrar alguma revista, livro, papel para alguém, eu preciso digitar ou achar algum link, ou, quando eu encontro um santo muito desocupado, dá pra ligar a câmera e mostrar rapidinho. Ninguém me diz saúde se eu espirro, assim como ninguém vai ficar sabendo se eu bati o joelho na ponta da mesa e to morrendo de dor. Ou se eu estou com dor de cabeça, ninguém vai me oferecer um tylenol. Às vezes, eu passo o dia todo sem falar uma única palavra. E nem me dou conta disso.

Eu não preciso mais abastecer meu guarda-roupa de tempos em tempos para ficar apresentável na firma (e para meus entrevistados); não preciso inventar combinações novas todo dia para não repetir roupa; não preciso ficar com o pé doendo dentro de um sapatinho lindo mas apertado; não preciso andar com bandaid na bolsa; não preciso passar maquiagem todo dia (o que irrita os meus cílios, cá entre nós), não preciso fazer escova na franja!

Na minha vida, todas as roupas são roupas de trabalho, até aquela camiseta que já deveria ter virado pano de chão, de tal modo que é possível desconfiar, às vezes, se a roupa escolhida para uma conversa de emprego é mesmo adequada. Os meus sapatos estão velhos, e eu não preciso trocar; as minhas calças estão gastas, e eu não tenho motivo para procurar outras. Eu engordei e ninguém percebeu. Eu esqueci como se faz uma maquiagem básica, porque agora eu só uso maquiagem à noite (quando tudo bem passar muito lápis).

E, ontem, um evento assustador: eu passei o dia fora, resolvendo pendências, encontrando amigos, indo de um curso ao outro. Coloquei o sapato arrumadinho mais confortável para aguentar o dia todo e fui, e peguei ônibus, e caminhei, e falei com as pessoas, e tudo isso que vocês fazem todo dia. Depois de pouco tempo, eu já estava exausta, com bolhas nos pés, meu baço doendo das caminhadas em ritmo apressadinho, a pele suja, a roupa ficando gasta ao longo do dia, o cabelo se estragando no vento. Eu desaprendi tudo.

Hoje de manhã, o @bomdiaporque, um dos meus companheiros nessa vida de mau humor virtual, mandou uma boa. “Ter que acordar pra ir pro trabalho é chato. Acordar e não ter emprego é pior ainda. Enfim, a vida não tem solução”. Eu também não achei um caminho ainda, mas, combinadores da desgraça alheia, saibam que a minha balança ainda pende pra minha situação atual. Com toda a solidão e ensimesmamento que ela comporta, mas também com as liberdades.

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5 Responses to A vida não tem solução

  1. Larissa disse:

    me identifiquei muito. mas não acho que não tem solução. aqui em bcn o que o pessoal faz é montar um esquema em que várias pessoas (geralmente amigos, o que elimina o problema do almoço cm colega de firma), profissionais independentes, alugam um espaço de trabalho comum. Cada um continua com seus horários, sem chefe, enfim, mas com o problema do isolamento resolvido. Agora, quanto aos deslocamentos em sp, só se resolve se você achar um lugar do lado da sua casa pra dividir com vizinhos. Mas com o sistema de transporte daqui isso não chega a configurar um problema…

    • emmer disse:

      gostei muito dessa ideia de barcelona. realmente, se não fosse o problema do deslocamento, eu cogitaria fazer isso em sp.

      também me identifiquei deveras com o post (tirando a parte feminina do negócio).

  2. Evandro disse:

    “Ter que acordar pra ir pro trabalho é chato. Acordar e não ter emprego é pior ainda. Enfim, a vida não tem solução”
    Tem sim, é dormir no trabalho.
    http://www.malvados.com.br/index1394.html
    Tentarei aprimorar a técnica.

    post scriptum: almoçarei agora, 15:00, pra não correr o risco de encontrar um colega de trabalho no restaurante.

  3. […] uma vez: a vida não tem solução. Logo começo a resmungar e dizer que era muito mais feliz trabalhando em casa. Peço ao senhor em […]

  4. […] no msn às 3h46 da madrugada, ou um entediado com o trabalho às 15h17. Mas não é triste? O post que falava que a vida não tem solução não era assim tão […]

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