Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha

(continuação disto)

Numa quinta-feira que passou, a faxineira que deixa minha casa muito limpa e protegida de eventuais seres rastejantes estava distraída e não se lembrou de fechar o ralo da cozinha depois de ter feito toda a água com sabão desaparecer por lá. Na sexta-feira seguinte, eu estava no sofá assistindo televisão, me preocupando muito com os terríveis problemas femininos apresentados na sexta temporada do Sex and the City. Uma e meia da manhã: bateu o sono, desliguei a TV, fechei a casa, fui arrumar a cama.

Durante o lento e cinematográfico caimento da minha colcha branca de piquê sobre o piso revestido de madeira envelhecida (fake), um susto: saiu uma barata nojenta não sei de onde e entrou debaixo da minha cama, passando a poucos perigosos centímetros do meu pé descalço e sonolento. Que acordou: pulo pra cima da cama, olho pra direita, olho pra esquerda, olho pra cima, olho pra baixo. Caraaaaalho. Uma e meia da manhã.

“Eu sabia que baratas resistiam a mais de um mês sem alimento ou água. E que até de madeira faziam substância nutritiva aproveitável. E que, mesmo depois de pisadas, descomprimiam-se lentamente e continuavam a andar. Mesmo congeladas, ao degelarem, prosseguiam na marcha… Há trezentos e cinquenta milhões de anos elas se repetiam sem se transformarem. Quando o mundo era quase nu elas já o cobriam vagarosas”

Não vou dizer que fiz alguns telefonemas, porque vão me perguntar se eu realmente acreditava que alguém iria até a minha casa me salvar, e não vou saber responder. Também não vou contar das mensagens de texto que eu mandei, pelo mesmo motivo. Só vale a pena narrar que resguardei um lençol e um travesseiro no distante sofá-cama da sala e me muni de veneno e chinelo. Pronta e decidida a acabar com a bicha, só faltava descobrir como.

No conto A Quinta História, também da Clarice Lispector (no livro A Legião Estrangeira) e também sobre baratas e não sobre baratas, existe uma receita: misturar em partes iguais açúcar, farinha e gesso. “A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas”. Lindo e limpo, mas quem tinha tempo e humor para delicadezas? Numa extraordinária sinapse que conectou poesia, horror e Adorno, reproduzi a barbárie e montei no meu quarto uma câmara de gás.

“A hostilidade me tomara. É mais do que não gostar de baratas: eu não as quero. Além de que são a miniatura de um animal enorme. A hostilidade crescia”

Baygon ou sei-lá-qual-veneno por tudo: posicionei a trava da maneira que as instruções indicavam e segurei o chinelo na mão esquerda, para um ataque rápido no caso de uma tentativa de fuga. De pé na minha cama, me inclinei com cuidado e nojo de modo a direcionar o veneno para debaixo dela, atentando para não manchar a madeira do piso e da própria cama. Espirrei pelos três cantos disponíveis, menos pela cabeceira, que já fica encostada na parede. Deixei a janela fechada e, antes de fechar a porta, espirrei mais um monte no ar (depois lembrei que meus livros, computador e a bagunça toda ficariam cobertos de veneno em sua superfície). Por fim, lacrei o cômodo enfiando dezenas de panos no vão da porta.

Não vou dizer que fiquei mais tranquila. Meu sono desapareceu e as mensagens de celular prosseguiram por mais ou menos uma hora. Um amigo me telefonou, deu altas gargalhadas e tentou me incentivar a enfrentar o problema – “levanta e mata logo” –, sem sucesso. Pelo menos me lembrou de um detalhe importantíssimo: eu não tinha feito uma barreira de veneno na porta! Reparei logo o erro, tirando os panos com cuidado, porque não sabia se ela já tinha se alojado no meio deles para me surpreender e me atacar e…

(continua)

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2 Responses to Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha

  1. […] Era uma barata tão velha como salamandras e quimeras e grifos e leviatãs. Ela era antiga como uma lenda (final da trilogia da barata – partes 1 e 2) […]

  2. antonio disse:

    É a 2a x k acordo com uma pta duma barata andar na minha cara durante a noite, estou a ficar maluco! N sei o k fazer…

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