Não é mais uma ideia de barata

A Paixão Segundo GH não é um livro sobre a mulher que comeu a barata. Mas, sim, é um livro sobre a mulher que comeu a barata. Não há quem não o identifique assim ou relacione baratas com Clarice Lispector, se for preciso relacioná-las com alguma coisa, e, no entanto, comer a massa branca da barata aparece lá no finalzinho, e só como uma consequência. Mas a barata existe e, por isso, minha história começa assim: quando eu li A Paixão Segundo GH pela primeira vez, eu não conhecia baratas.

“Eu na verdade – eu nunca tinha mesmo visto uma barata. Só tivera repugnância pela sua antiga e sempre presente existência – mas nunca a defrontara, nem mesmo em pensamento”

Foi há nove anos e, embora não se precise de muita experiência de vida para saber como baratas são, a minha se resumia à vivência em lugares muito limpos e protegidos de seres rastejantes. Havia tatu-bolas no jardim do prédio, e eu morria de nojo deles. Uma vez minha vizinha colocou um na minha mão, bolinha, e só depois, quando eu soltei e vi que ele tinha muitas patinhas e era segmentado, morri de nojo dele e de raiva da vizinha. Também havia algumas lagartixas na parede da garagem da casa do meu avô. Era uma parede chapiscada, que machucava quando a gente passava o braço perto sem querer, correndo nas motocas; era verde musgo, e ficava quase preta à noite, verde musgo ainda só em cima, perto das lâmpadas. Lá corriam as lagartixas, e eu observava de longe, sentada no sofá da sala que ficava na direção da porta, olhando atenta se elas permaneceriam do lado de fora. “Elas não entram, elas estão procurando os mosquitinhos para comer”. Eu fingia que acreditava.

As baratas entram e nunca ninguém tentou esconder isso de mim. Mas me disseram que elas não vêm pra cima das pessoas, e eu tive que fingir que acreditava, não só porque eram pessoas sensatas dizendo, mas também porque o diziam há pouco mais de algumas semanas, quando eu já não era mais a criança sentada no sofá do meu avô. Eu ainda tinha medo (eu ainda tenho medo). Não faz muito tempo, eu vi uma atacando uma moça ali na esquina da Consolação. Devia ser dessas com asas mais potentes, que venceria todas as suas vizinhas de calçada e bueiro na competição pela sobrevivência, não fosse o sapato do garçom que temia perder uma cliente. Foi por isso que, quando surgiu uma na minha casa, eu fiquei paralisada, longe e paralisada. Não tinha garçom e nem ir embora eu podia: ela estava debaixo da minha cama.

“Pela lentidão e grossura, era uma barata muito velha. No meu arcaico terror por baratas eu aprendera a adivinhar, mesmo à distância, suas idades e perigos; mesmo sem nunca ter realmente encarado uma barata eu conhecia os seus processos de existência”

Quando a GH me obrigou a pensar em uma barata, eu não sabia pensar em uma barata. Achei bonito o que ela dizia, eu lembro: a criatura presa pela cintura (barata era bicho fêmea), o encontro com o neutro, a indiferença que é a vida… Não foi difícil aos dezessete anos, não sei como; tinha sido uma experiência. Mas ninguém na época podia dividir a descoberta comigo – mal tinham lido o livro obrigatório no vestibular, e quem leu achou esquisitíssimo. Então, quando eu conheci pessoas que sabiam de fato quem era Clarice Lispector, e quando eu mencionava o que já tinha lido, o comentário invariavelmente era: “ah, aquele em que a mulher come a barata?”. No começo eu dizia que sim, era esse, mas o livro não era sobre comer a barata, era sobre… Depois eu devo ter desistido da resposta, a tal ponto que ele virou para mim aquele em que a mulher come a barata. Era isso, mas com uma indiferença de que eu não seria capaz se achasse mesmo que era sobre comer baratas.

(continua)

Anúncios

8 Responses to Não é mais uma ideia de barata

  1. Daniela Alarcon disse:

    Tatu bolinha… brincava muito com eles.
    O jardim da casa em Guarulhos era cheio deles. Uma vez, coloquei vários numa caixa muito grande, aberta, onde montei um playground para eles, com escorregadores, lagos e o diabo. Fiquei bem triste de eles não brincarem. Logo, um deles morreu e eu o enterrei no jardim, numa caixinha de fósforo pintada de roxo; em seguida, libertei os outros. (Eu devia ter uma infância muito solitária, de fato…) Mas o horror mesmo veio algum tempo depois. Um dia, arrastaram o piano para limpar; não o faziam sempre, sempre. Nesse dia, descobri um cemitério de tatus bolinhas ali embaixo. Inúmeros. Eles entravam pela fresta da porta e, desavisados, iam morrer naquele canto, enroladinhos.

    (Pena que, na época, você não perguntou a mim, sobre GH ou Clarice. Aos 15 eu tinha lido “A hora da estrela” na escola e daí enveredei por outros. E igualmente tinha quase ninguém com quem conversar sobre.)

  2. Daniela Alarcon disse:

    PS. Que bom que reviveste o blogue. Posso linká-lo no meu? Besitos

  3. mariana disse:

    Eba, link! Claro que pode. Eu era mais mulherzinha, Dani: casinha só para as barbies. Mas tatu bola é preferível a baratas, de toda forma.

  4. raqcozer disse:

    Isso foi antes de Metamorfose? Estou muito impressionada com a ideia de pensar em uma barata sem ter visto uma!…

  5. mariana disse:

    Ah, Metamorfose não é um livro sobre baratas… :) Mas foi antes, de todo jeito. Já tinha visto baratas, mas daquele jeito: um tamanho escuro andando, como diz a Clarice em alguma página. Não tinha viiiiiiiiisto (os cílios, a boca, os olhos, as asas etc).

  6. […] Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha (continuação disto) […]

  7. joão fellet disse:

    mari! me lembro bem de quando eu entrava no autopsicografia. vida longa ao muito! (adorei o nome).

    sobre as baratas, o kapuscinski narrou em “ébano” um encontro divertidíssimo dele com elas, num hotel em gana. ele disse que, ao abrir a porta do quarto, se deparou com baratas tão grandes, mas tão grandes, que pareciam pequenas tartarugas.

    ele entrou, morrendo de medo de sofrer um ataque, mas foi aí que algo surpreendente aconteceu: elas abriram espaço pra ele, como se evitassem a todo custo tocá-lo. elas tinham nojo dele.

    foi então que comecei a pensar: será que nós somos as baratas das baratas?? não é terrível isso??

  8. mariana disse:

    Adorei, João! Eu quero ser a barata das baratas!! E mais um motivo para eu ler de uma vez por todas o Kapucinski (que tá virando meu ídolo com essa história de “ficção” no “jornalismo”).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: