Paralelo: futebol

“O jogo estava perto de acabar e o placar ainda não tinha sido aberto. Uma partida de futebol dura noventa minutos – dois tempos de 45 minutos – e até então todas as bolas chutadas em direção às redes tinham ido para fora ou tinham sido defendidas pelas goleiras. As americanas chutavam mais a gol que as chinesas e pareciam impulsionar a bola com mais força e mais longe, além de ocupar mais espaços no campo quando corriam para assumir formações ofensivas ou defensivas. Mas as chinesas me davam a impressão de levar vantagem no jogo de equipe e de conseguir prever para onde iria a bola. Pareciam pressentir o desdobramento de cada lance da partida, e como o antigo astro do basquete Dennis Rodman – autêntico gênio da geometria, na medida em que previa as trajetórias de bolas errantes que ricocheteavam nas tabelas e nos aros das cestas -, as chinesas estavam sempre uma fração de segundo antes no ponto em que chega a uma bola passada por uma companheira ou onde pudessem interceptar uma tabelinha entre duas adversárias. As chinesas evitavam perder a bola avançando com passos curtos e mantinham a posse de bola com dissimulações – retinham a bola entre os pés, passavam um pé sobre ela, dançavam um samba, uma rumba e depois balançavam os quadris e a cabeça para desequilibrar as adversárias e abrir espaço suficiente para lançar um passe longo para uma companheira que investia na direção do gol das rivais.

Num dado momento, no finalzinho da partida, as chinesas tiveram uma chance de abrir o marcador. Depois que as americanas permitiram que a bola saísse pela linha de fundo, a chinesa que bateu o escanteio imprimiu à bola uma trajetória curva na direção das traves, bem diante de duas jogadoras prontas para chutá-la ou cabeceá-la para as redes. Mas antes que conseguissem fazer isso, a goleira americana avançou e afastou o perigo com um soco, atingindo não só a bola, mas também a cabeça de uma companheira, e com tanta violência que a americana caiu estendida no chão. Tendo perdido a consciência por alguns momentos e incapaz de se reequilibrar depois que a ajudaram a pôr-se de pé, a moça saiu de campo carregada e não retornou ao gramado. Sua substituta saiu-se bastante bem e a peleja prosseguiu sem novas oportunidades de gol para nenhum dos lados até o fim do tempo regulamentar.” 

Gay Talese, “Vida de escritor”. Companhia das Letras, 2009

 

“Entre os gols dessa época que se perderam da memória coletiva, escolho um que não é de Pelé, mas de Coutinho, e não aconteceu na Vila Belmiro, mas no Maracanã, numa noite de 1962, na primeira partida da decisão do Mundial Interclubes, entre Santos e Benfica. A bola foi lançada pelo alto, vinda da intermediária pelo lado direito, caindo sobre o bico esquerdo da pequena área, onde estava Coutinho. Ele matou de efeito, sem deixá-la cair no chão, aproveitando tanto o impulso natural da bola quanto o seu desenho em curva para dar um chapéu de fora para dentro num primeiro zagueiro, e, em seguida, um outro chapéu simétrico num segundo zagueiro, antes de concluir, sem que a bola tocasse o chão.

Vi esse gol, de uma perfeição rara, uma única vez – ele é de antes da existência do replay. A televisão em preto-e-branco dobrava hipnoticamente o branco do uniforme alvinegro, redobrado ainda pelo contraponto visual da pele negra com a bola branca (que só se usava, então, para jogos noturnos). Tudo num flash – àquela época espocavam flashes, confundidos na luz da tela e na da memória com o próprio gol fulminante em tempo-espaço mínimo. Mais do que produzir o efeito de “uma pintura”, ele me lembra aquela técnica de desenho japonês em preto-e-branco, o sumiê, em que o artista arremata a obra com uma única pincelada. Não conheço ninguém mais que se lembre desse gol. Um colega de ginásio me disse na época que o tinha visto no cinema, mas nunca o reencontrei nas raras e extasiantes retrospectivas do Canal 100. O filme Pelé Eterno não o mostra, reduzindo-o literalmente a uma mutiladora fração de segundo. Li num jornal, dois dias depois do jogo, que, ao embarcar de volta para Portugal, um dirigente do Benfica declarou sobre o gol, numa autêntica chave de ouro camoniana, que valera a pena atravessar o oceano, só para sofrê-lo.”  

José Miguel Wisnik, “Veneno remédio – o futebol e o Brasil”. Companhia das Letras, 2008

 

(e o Esporte Espetacular está fazendo uma enquete sobre o drible mais bonito, mas no site só dá pra votar, não dá pra assistir. Quem não viu ontem, não vota. Que sem graça)

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One Response to Paralelo: futebol

  1. SilvaMatos disse:

    Olá, gostaria de te convidar para participar de uma rede de conteúdo, se tiver interesse me adiciona no msn ocasional80@yahoo.com.br ou me manda um email. Abraços Junior

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